"Comece pelo começo."
"Tenho me sentido em vãos, doutora."
"Claustrofobia do pensamento. Mas você tem um ego agorafóbico. Você tem plano de saúde?"
"Nunca fiz planos: Se os faço, não os cumpro."
"Como se sente?"
"O amigo preocupado do meu ego. Preocupado com meu ego, aquele drogado..."
"O que você vê aqui neste cartão?"
O teste foi esse:
"A sílaba tônica do martelo, se eu falo, martelo a minha língua. Se em pensamento, martelo minha mente, e se escrevo, martelo descontente."
Doses diárias de catarse: Recomendação médica. Foi o resultado do diagnóstico. Tenho que desintoxicar. Uma emoção intensa a cada quatro horas.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Um outro trecho
Eu sempre amei aquele jeito como ela se despia ou se vestia. Ela é daquelas mulheres que ficam lindas quando estão vestidas de bagunça. Levantava, jogava aquele blusão de lã sobre o corpo, já estava linda. Ela adorava ficar descalça no chão de madeira, e se saía, saía de sandálias ou com aquelas sapatilhas que deixavam à mostra os pés branquinhos e o cordão trançado de crina de cavalo e couro que ela usava no tornozelo esquerdo.
Tenho e sou agora de uma morena magra e alta, a pele dela é que nem qualquer verso de poema que usa as palavras "cobre" ou "castanho" para elogiar uma beleza mestiça. Tendo sido já devidamente apresentada por escritores essa pele, descrevo mais. O cabelo dela não é liso e castanho que nem o da outra, mas sim aquela juba linda e armada, imponente como uma nuvem teimosa que ficasse dourada porque está entre a testa suave e o sol. O rosto é lindo; colinas africanas onde o viço de uma selva cruza com a simplicidade ostentada da savana. Os olhos, oliva, e o sorriso o leite branco da leoa, mas doce como a carne sem pecados do mamão.
Ela se veste elegante, usa vestidos de poucos tons de uma mesma cor, e se não são de estamparia abstrata, são floridos; e se têm flores ela é um canteiro de terra fértil onde só não germinou vida nas leras de seus braços e pernas e no rosto onde a natureza plantou apenas uma graça nobre.
Só que ainda me marcou mais a minha branquela do tempo em que eu trabalhava perto do porto. Eu saía do meu turno e engolia aquele vento frio e lá estava ela, olhando o mar de cima do trapiche. Ela aparecia junto com o sol, quando começava a manhã. Trazia um café para mim, logo ela já tinha que ir pro trabalho. Pesquisadora.
Sempre que me perguntarem vou dizer que não, negar pra sempre... Mas coração de homem é mesmo vagabundo. É sempre vagabundo. Se alguma vez você perguntar a um homem feito se ele se acha um vagabundo de coração, talvez ele negue. Sabe por quê? Porque ele sabe que é.
Eu estou com quem me sustenta. Ando nutrido com os frutos da terra. Mas degredado eu canto uma canção do exílio volta e meia para aquela violeira do blusão de lã, de cabelo castanho e longo, de sobrancelha grossa, pele branca e de gestos letárgicos. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas, porque a morena e eu temos as noites de folga só pra folguear, e nossas várzeas têm mais flores porque ela usa vestido florido. Mas me lembro de umas noites onde o céu tinha mais vida, mesmo que estrela pareça coisa quieta, de longe.
Eu estou morando na toca do leão. Eu a chamo a morena de Nemeia. Ela ri porque é mestra em Estudos Mitológicos e Psicologia Arquetípica Jungiana. Ela sabe das coisas melhor que eu, não importa o que. Ao menos parece, porque a mim ela não entende. Por isso ela está comigo. Porque ela não me entende. Enquanto me analisa, me prende. Enquanto me desvenda, me conquista. Se ela olhasse para mim e soubesse o que eu penso, voltaria a ser tranquila e poderia ser solteira.
Ela não entende, na verdade, como eu consegui, destruído, construir uma casa em cima das ruínas do templo grego que eu fui, pelo qual ela se interessa. Bem verdade - nem sou casa nem fui templo; Eu sou é um quarto-sala ou quitinete erguida nas coxas por cima de uma hermida, e só. Mas ela talvez entenda isso, as partes, não compreende é a forma total. Vê o mármore da ruína, vê a argamassa do quartinho, mas não entende a amálgama.
Enquanto eu não falar, ela nunca vai entender.
No tempo em que eu era algo antes de ruína eu bebia libações. Tinha música do violão que ela gostava de tocar no colchão, quase sem roupa, meio estirada sobre aquele blusão de lã, e a gente não rezava, mas vivia de joelhos.
Só que passou o tempo desse meu paganismo e agora eu moro num divã. E não que eu não queira me entender também: Eu me entendo. Me entendi. Me entediei. Talvez por isso eu não queira que a Nemeia me entenda. Me fareje e me estrangule. Não precisa. Não dá. Não vale a análise.
Tenho e sou agora de uma morena magra e alta, a pele dela é que nem qualquer verso de poema que usa as palavras "cobre" ou "castanho" para elogiar uma beleza mestiça. Tendo sido já devidamente apresentada por escritores essa pele, descrevo mais. O cabelo dela não é liso e castanho que nem o da outra, mas sim aquela juba linda e armada, imponente como uma nuvem teimosa que ficasse dourada porque está entre a testa suave e o sol. O rosto é lindo; colinas africanas onde o viço de uma selva cruza com a simplicidade ostentada da savana. Os olhos, oliva, e o sorriso o leite branco da leoa, mas doce como a carne sem pecados do mamão.
Ela se veste elegante, usa vestidos de poucos tons de uma mesma cor, e se não são de estamparia abstrata, são floridos; e se têm flores ela é um canteiro de terra fértil onde só não germinou vida nas leras de seus braços e pernas e no rosto onde a natureza plantou apenas uma graça nobre.
Só que ainda me marcou mais a minha branquela do tempo em que eu trabalhava perto do porto. Eu saía do meu turno e engolia aquele vento frio e lá estava ela, olhando o mar de cima do trapiche. Ela aparecia junto com o sol, quando começava a manhã. Trazia um café para mim, logo ela já tinha que ir pro trabalho. Pesquisadora.
Sempre que me perguntarem vou dizer que não, negar pra sempre... Mas coração de homem é mesmo vagabundo. É sempre vagabundo. Se alguma vez você perguntar a um homem feito se ele se acha um vagabundo de coração, talvez ele negue. Sabe por quê? Porque ele sabe que é.
Eu estou com quem me sustenta. Ando nutrido com os frutos da terra. Mas degredado eu canto uma canção do exílio volta e meia para aquela violeira do blusão de lã, de cabelo castanho e longo, de sobrancelha grossa, pele branca e de gestos letárgicos. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas, porque a morena e eu temos as noites de folga só pra folguear, e nossas várzeas têm mais flores porque ela usa vestido florido. Mas me lembro de umas noites onde o céu tinha mais vida, mesmo que estrela pareça coisa quieta, de longe.
Eu estou morando na toca do leão. Eu a chamo a morena de Nemeia. Ela ri porque é mestra em Estudos Mitológicos e Psicologia Arquetípica Jungiana. Ela sabe das coisas melhor que eu, não importa o que. Ao menos parece, porque a mim ela não entende. Por isso ela está comigo. Porque ela não me entende. Enquanto me analisa, me prende. Enquanto me desvenda, me conquista. Se ela olhasse para mim e soubesse o que eu penso, voltaria a ser tranquila e poderia ser solteira.
Ela não entende, na verdade, como eu consegui, destruído, construir uma casa em cima das ruínas do templo grego que eu fui, pelo qual ela se interessa. Bem verdade - nem sou casa nem fui templo; Eu sou é um quarto-sala ou quitinete erguida nas coxas por cima de uma hermida, e só. Mas ela talvez entenda isso, as partes, não compreende é a forma total. Vê o mármore da ruína, vê a argamassa do quartinho, mas não entende a amálgama.
Enquanto eu não falar, ela nunca vai entender.
No tempo em que eu era algo antes de ruína eu bebia libações. Tinha música do violão que ela gostava de tocar no colchão, quase sem roupa, meio estirada sobre aquele blusão de lã, e a gente não rezava, mas vivia de joelhos.
Só que passou o tempo desse meu paganismo e agora eu moro num divã. E não que eu não queira me entender também: Eu me entendo. Me entendi. Me entediei. Talvez por isso eu não queira que a Nemeia me entenda. Me fareje e me estrangule. Não precisa. Não dá. Não vale a análise.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Passagens
Passei algum tempo pensando na Rainha das Estrelas, e por
perto sempre esteve a Dama da Terra. E nesse enleio eu também fui elemento
consolidado – uma coisa de vento ou memória pairando entre as duas, e entre
elas, e talvez também tenha sido um ermo de submundo nos subterrâneos da terra,
clamando por vida e cor, ou cujas brechas observavam e queriam a luz fria e
branca das estrelas ao longe.
Uma eu vejo nas correntes do céu, entre o cerúleo da lonjura e o branco da distância, e está posta além do alcance mas castiga os olhos.
Outra está posta entre flores e caules, nua, e a casca das árvores é sua pele tão macia por onde o orvalho não escorre - prefere se agarrar e secar a ter de deixar.
Uma está com a vista voltada para a escuridão dos céus além, cada vez mais distantes e vazios. Pensa com a presteza da estrela, e ela é esperança cuja luz ainda vaga depois de morto o coração que irradia.
Outra está sob aves canoras e entre as frutas que amadurecem, e ao seu redor as plantas se enroscam como se fosse normal haver vida. Ela apenas escuta o pólen e sente o gosto da canção, o perfume dos meus toques e observa, na paz de seus olhos fechados, a tranquilidade.
E minhas mãos, estranhas porque sujas de tinta, ora mancham folhas verdes como se quisessem escrever direto na natureza ao invés de se contentarem em descrevê-la, citando montanhas e paz.
E minhas mãos, estranhas porque sujas de tinta e sal, ora escurecem-me a vista quando limpo os olhos, e por um instante tudo o que vejo é preto.
Uma árvore coroada de estrelas. Uma colina orvalhada encimada pelo espelho do firmamento, onde uma nuvem de prata esteja cercada por estrelas. A união de céu e terra é um tanto fugaz, e em nada contentadora.
Estarei sempre eu, um horizonte, cortando ao meio algo que une a terra boa com o ar superior.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Silence is the dearest companion of all.
Silence is the dearest companion of all.
It asks nothing of a Being
that wouldn't be willingly given
A Song or two, and loud screams,
Some meaningless laughter and whining,
And then silence would again be company.
It asks nothing of a Being
that wouldn't be willingly given
A Song or two, and loud screams,
Some meaningless laughter and whining,
And then silence would again be company.
segunda-feira, 24 de março de 2014
A Pluralidade do Sujeito
Percebi que o que tenho vivido é o Idiota. O Eu, aquele de hábito, virou recluso e fechou-se de tal modo que eu não o encontro mais. Não sei mais dele, ou sei lá, de mim. Não me manda carta, não me escreve nem para dizer se está vivo. Apenas escuto falar a seu respeito quando o Escritor passa e deixa bilhetes ou pistas que me remetam a mim. Isso porque não me mando carta, não me escrevo nem para me dizer se estou vivo.
O Recluso, não sei se pobre coitado ou querido e estimado amigo que partiu, deixa suas marcas também. Indeléveis até o próximo tempo de inconstâncias. Agorafobia. Que fim para mim.
O Idiota é que tem que tocar a vida. Trabalha. Toma café. Fala. Tem vivido há mais de ano. Aprendeu a lidar com o relógio e com a boca e com a cama, mas não se pode exigir calor do inverno ou lambidas fiéis de uma cobra letárgica. Porque é essencialmente Idiota, ele, eu, não que o inverno ou as cobras sejam idiotas. O Idiota sou eu.
O Escritor, eis-me aqui mediando um conflito estranho. Uma guerra de ausências. Uma face para a qual os outros dois não parecem ligar. Não me incomoda isso. O desprezo, podem queixar-se alguns, é um fardo amargo e perturbador, mas alguém precisa ter por legado o esquecimento. Alguém precisa herdar a indiferença. Alguém precisa ser o corredor, pois o mundo está cheio de quintais e grandes salões.
Sou mais de um, e todos eus não nos comunico.
O Recluso, não sei se pobre coitado ou querido e estimado amigo que partiu, deixa suas marcas também. Indeléveis até o próximo tempo de inconstâncias. Agorafobia. Que fim para mim.
O Idiota é que tem que tocar a vida. Trabalha. Toma café. Fala. Tem vivido há mais de ano. Aprendeu a lidar com o relógio e com a boca e com a cama, mas não se pode exigir calor do inverno ou lambidas fiéis de uma cobra letárgica. Porque é essencialmente Idiota, ele, eu, não que o inverno ou as cobras sejam idiotas. O Idiota sou eu.
O Escritor, eis-me aqui mediando um conflito estranho. Uma guerra de ausências. Uma face para a qual os outros dois não parecem ligar. Não me incomoda isso. O desprezo, podem queixar-se alguns, é um fardo amargo e perturbador, mas alguém precisa ter por legado o esquecimento. Alguém precisa herdar a indiferença. Alguém precisa ser o corredor, pois o mundo está cheio de quintais e grandes salões.
Sou mais de um, e todos eus não nos comunico.
"Mad Man", arte de Sakimi chan
[http://sakimichan.deviantart.com/]
[https://www.facebook.com/pages/Sakimi-chan/1409836239257534]
[http://sakimichan.deviantart.com/]
[https://www.facebook.com/pages/Sakimi-chan/1409836239257534]
sexta-feira, 21 de março de 2014
No Leito
Consegui chegar a acreditar que seria bom dividir momentos com mulheres cujos nomes eu não sabia e nunca ficarei sabendo. Os momentos passaram, bons, mas sem seus nomes as mulheres não ficaram nas memórias. Foram folha no fluxo constante de um rio meu. Deriva nas águas do leito.
E talvez tenham passado assim porque, afinal, sou mais que uma criatura apaziguada - coloco-me em situações de pressão. Agrada-me essa ideia, a de que é possível a gente se colocar em uma situação tão tensa que a única opção é a mudança. Mudar. Evolução. Mudança de curso.
Porque o que me excita é a inteligência, e a simpatia. A benignidade de apanhar folhas e pedras, ou de olhar para a água corrente sempre que ela estiver visível. E me atiça um sorriso bonito encimado por olhos que revelam mais do que escondem, porque prefiro me afogar em mar raso e conhecido a perder o lenho em águas estranhas cheias de promessa.
Porque o que me atrai é aquela situação de perigo que só vem através da calma e da familiaridade. Faz meu sangue correr porque é incerto, porque é uma constante insegurança, ou uma insegurança tamanha que não me permite sair da defensiva e da incerteza senão com grande esforço e paixão, para daí aproveitar, como um prêmio, um instante de segurança e paz, flutuar nas águas do rio. Pelo leito.
Não ter conforto não é desconfortável. Não é desconfortante. Nem é desconcertante. É o que quero. É ter que evoluir por causa daquilo que eu amo e por causa daquilo que me atrai, por causa daquilo que me chama e, quem sabe, por causa daquilo que me quer. A isca, para mim, não servirá se for entregue na superfície, mas tampouco me terá se estiver tão fundo que não se possa perceber. Fosse eu o peixe, na verdade, eu morderia o anzol sem artifícios apenas para ter que descobrir um jeito de me livrar do ponteiro e do meu sangue e de alguma dor, mesmo que no leito.
É dessa sorte se perder, às vezes, ou sofrer danos que aparentemente ficam na memória sugerindo que já se passaram tempos melhores. Nem tudo que causa dano é inimigo. Nem todos que se perdem já se encontraram. Mas se esses dias, se essa vida, se essa coisa é o rio, é bom saber que ele segue para desaguar em mais fluxo. E que por muito tempo ele passa em leito.
E talvez tenham passado assim porque, afinal, sou mais que uma criatura apaziguada - coloco-me em situações de pressão. Agrada-me essa ideia, a de que é possível a gente se colocar em uma situação tão tensa que a única opção é a mudança. Mudar. Evolução. Mudança de curso.
Porque o que me excita é a inteligência, e a simpatia. A benignidade de apanhar folhas e pedras, ou de olhar para a água corrente sempre que ela estiver visível. E me atiça um sorriso bonito encimado por olhos que revelam mais do que escondem, porque prefiro me afogar em mar raso e conhecido a perder o lenho em águas estranhas cheias de promessa.
Porque o que me atrai é aquela situação de perigo que só vem através da calma e da familiaridade. Faz meu sangue correr porque é incerto, porque é uma constante insegurança, ou uma insegurança tamanha que não me permite sair da defensiva e da incerteza senão com grande esforço e paixão, para daí aproveitar, como um prêmio, um instante de segurança e paz, flutuar nas águas do rio. Pelo leito.
Não ter conforto não é desconfortável. Não é desconfortante. Nem é desconcertante. É o que quero. É ter que evoluir por causa daquilo que eu amo e por causa daquilo que me atrai, por causa daquilo que me chama e, quem sabe, por causa daquilo que me quer. A isca, para mim, não servirá se for entregue na superfície, mas tampouco me terá se estiver tão fundo que não se possa perceber. Fosse eu o peixe, na verdade, eu morderia o anzol sem artifícios apenas para ter que descobrir um jeito de me livrar do ponteiro e do meu sangue e de alguma dor, mesmo que no leito.
É dessa sorte se perder, às vezes, ou sofrer danos que aparentemente ficam na memória sugerindo que já se passaram tempos melhores. Nem tudo que causa dano é inimigo. Nem todos que se perdem já se encontraram. Mas se esses dias, se essa vida, se essa coisa é o rio, é bom saber que ele segue para desaguar em mais fluxo. E que por muito tempo ele passa em leito.
quarta-feira, 19 de março de 2014
De Mil
Estou cansado.
Por favor não me perguntem o porquê de eu estar cansado.
Estou apenas isso. Cansado.
Não pedi que me perguntassem o porquê de eu estar cansado.
Apenas isso, estou cansado.
Cansado.
Como estou cansado de não dizer que estou cansado, foi isso
o que eu disse.
Que estou cansado.
Só isso. Não me perguntem, eu peço, o motivo de eu estar
cansado.
Nem eu sei. Estou cansado demais para saber.
E mesmo se eu soubesse, estaria cansado demais para entender.
E mesmo que entendesse, cansado como estou não falaria.
E mesmo que eu falasse, cansado assim não escutaria.
E ao não escutar, sendo questionado, eu ainda mais me
cansaria.
Estou cansado.
Ando tão cansado, na verdade, que nem consigo descansar.
Faz anos que não descanso.
Anos em que venho me cansando. Um cansaço latente,
impertinente, imponente.
Cansativo.
Eu poderia fazer prosa, ou então algum poema rimado e
divido. Mas não dá.
Simplesmente não dá. Por quê?
Estou cansado. Gente cansada não consegue se animar a contar
sílabas poéticas.
Gente cansada tem dificuldade em se acertar com a gramática.
Quem sente cansaço não concatena bem na sintática e nem
tripudia pela ortografia.
É, no máximo do seu mínimo, capaz de rebuscar, porque a
dificuldade não exige que se canse tanto. Embora viver canse.
Cansado.
Não cancionado.
Nem casado.
Nem caçado.
Só cansado.
Cansado que mais me canso.
Cansado que canso.
Apenas isso.
Só isso.
Cansado.
Cansa.
domingo, 9 de março de 2014
Um trecho
Trecho do primeiro capítulo de uma história que venho trabalhando aos poucos.
(...)
Empédocles. Aquele cara chato que ficava mendigando a atenção dela. Não
sei bem porque ele tinha esse nome, talvez fosse erudição dos pais. O coitado
não aguentou de saudades e numa overdose de tristeza, comiseração e Send me an Angel dos Scorpions ele decidiu se jogar da ponte
do Rio das Almas.
Também, caso não tenham
percebido, ela é daquele tipo de mulher que junta você e as encrencas.
Claro que podem não ter
percebido! Eu mal comecei a contar.
Acontece que pouca gente deu
importância ao fato do programador da empresa ter faltado naquele dia. Ele
nunca faltava, mas quando finalmente faltou... ninguém percebeu. Ninguém deu
bola.
E assim foi que, por volta das
catorze horas de domingo um grupo de montanhistas, escaladores e aventureiros
profissionais e amadores chegaram até a sombra do portal para o parque Monte
Alma, todos vestidos com aquelas roupas de esporte e trilha que tanta gente
compra porque acha legal mas nunca usa no mato ou na trilha.
Eles começaram a se dividir em
grupos para limpar o local. Uma rave recente havia certamente emporcalhado tudo
por ali. Era proibido fazer uma festa tão barulhenta em um parque, mas a
polícia nem dera as caras por lá.
Um dos grupos estava menos
eficiente porque seu membro mais pró-ativo e mais capaz estava lutando uma
batalha em sua própria cabeça. Ele estava tão distraído que já havia colocado o
capacete de escalada como se fossem dali direto para a montanha.
Ele ainda estava pensando na
ruiva das sardas e das meias de arrastão. Ela era aquele tipo de garota que une
você às encrencas. Era mais um daqueles momentos em que ele se odiava, se
ridicularizava, se consolava e se enchia de esperança – tudo às socapas e às
etapas, conforme ia pensando sua situação. Ele queria ela. Simples. Sempre.
Demais. E ela nunca vinha o suficiente, o que ela se fazia para ele nunca era o
suficiente para ele. Ele precisava de mais dela. Um vício tóxico, talvez, pela
carne e pela voz dela, pelo que ela contava da vida dela para ele, pelas
reflexões que ela fazia ao dizer que havia algo de errado com a cidade, pelo
olhar dela que injetava nele alguma coisa que o fazia escravo e desesperado por
dominar e obedecer.
E nessa querência desesperada
que era física porque misturava as urgências de um animal no cio e ao mesmo
tempo mental e abstrata porque envolvia noções mal curadas de romantismo e
paixão insensata com toques de emoção explicada, ele ia se consumindo num vício
ingrato que não lhe fazia sensato. A fé se erodia. Como o mais miserável,
abjeto e baixo dos viciados, ele sabia o que era aquela alegria intensa e
única, pura e inegável que o veículo e fim do seu vício lhe trazia, apenas para
afastar aquele vulto do vício em si e todo o vazio e sofrimento que derivam
dele.
É querer fugir desesperadamente
do sol, não aguentar sua luz, tremer e murchar diante do seu brilho. Então
chega uma sombra em sua casa que fecha todas as cortinas, bloqueando toda luz,
salvo por uma única fresta deixada talvez de propósito por onde entra um único
facho. Aquele facho é luz, e a luz se teme, mas é tão pequena diante de tanta
escuridão que ela parece apenas uma lembrança, um agouro, um perigo distante,
momentaneamente esquecido.
Cada minuto passado com ela
tinha o valor de horas porque ele sentia esse desespero por ela e o desespero
de saber que tinha apenas algum tempo com ela antes de tudo se acabar e voltar
a ser desesperadamente como antes. Um nojo. Um tédio. Quando as coisas davam
certo sem ela, era tudo pela metade, tudo desconexo. A felicidade intensa que
embolava suas entranhas só vinha dela desde quando ele conseguia se lembrar que
lutava para ser contente.
Ficar com ela. Que delícia de
sensação. Ela entrava pela porta do apartamento e era como se a vida valesse a
pena, cada segundo. Não havia mais problemas, não havia mais perigos, não havia
mais preocupação. Só havia ela, e ele, e o tempo. A distância ia ficando cada
vez mais curta. Mas o tempo passava junto com ela, e cada segundo daquela
intensidade de carne e de sentimento se desfazia porque estava mais perto do
fim inevitável. Algo tão bom não poderia durar muito, e essa ideia martelava o
cérebro dele com a força e a certeza de um tiro a queima-roupa.
Cada abraço, cada beijo, cada
olhar dispensado a ela era um gesto de extrema fé e prazer, mas manchado pelo
pesar de saber que podia ser o último. Ele estava abraçando o vendaval,
beijando dinamite, observando com calma e contentamento a mais violenta e
instável das reações químicas sob um controle estranho e não natural.
Vício. Alívio. Objeto e ser.
Tanta emoção e carne. Ela entrava na casa dele, uma sombra. O sol ficava lá
fora, barrado. Mas havia algo do sol que entrava, lembrando que o tempo é claro
e passa, lógico. Mas foda-se. Ela fechava a porta. Ela trancava a porta do apartamento
dele. Ele sabia que se olhasse pela janela veria ali a imagem embaçada de um
assassino, de um ladrão, de um maníaco. Mas ela estava ali, e ele sentia-se
isolado. Bem. De bem. Em um estado estranho e caótico demais, nervoso demais,
desesperado demais para ser chamado de paz.
– Rapaz, agora ferrou! – E
como se arranca coisa de coisa, ele foi arrancado daquela confusão de
pensamentos de merda que não o levariam a nada. Olhou para o lado e viu um de
seus companheiros do clube de escalada olhando para baixo com os olhos todo
espanto.
sábado, 1 de março de 2014
Metades Vivas
Enviuvei mais de uma vez e continuei meio vivo. Nunca, contudo, conheci a morte por vias de fato. Ignoro-lhe as feições: Passe ela por mim na rua, não a reconhecerei.
Sou viúvo, então, de gente viva. Meu coração morreu aos poucos com meus amores partidos. O resto vive com minhas amadas. Eu morri por nós, de enforcamento.
E sempre morri às metades: Acabou tal amor, metade de mim morreu. A metade que sobra que ame de novo.
Sou, assim, comboio de corda falecida que perdeu muitas e muitas metades. Para o diabo com a matemática da lógica e das quantidades: Sou o luto dos velórios de minhas várias metades que amargaram mortes tristes e arautaram viuvez por gente que segue viva.
Mas o sentimento morreu - diz para mim vez ou outra a tia velha que prepara e serve o cafezinho nos velórios. E sentimento vive?
Sou viúvo, então, de gente viva. Meu coração morreu aos poucos com meus amores partidos. O resto vive com minhas amadas. Eu morri por nós, de enforcamento.
E sempre morri às metades: Acabou tal amor, metade de mim morreu. A metade que sobra que ame de novo.
Sou, assim, comboio de corda falecida que perdeu muitas e muitas metades. Para o diabo com a matemática da lógica e das quantidades: Sou o luto dos velórios de minhas várias metades que amargaram mortes tristes e arautaram viuvez por gente que segue viva.
Mas o sentimento morreu - diz para mim vez ou outra a tia velha que prepara e serve o cafezinho nos velórios. E sentimento vive?
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