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sexta-feira, 9 de maio de 2014

As Rosas e o Punhal, Crônica Três, Parte III


Nasceu no olvido de dores.
Cresceu no cuidar dos irmãos.
Concebeu sob o céu estrelado.
Amou nos salões que sonhou.
Lutou na guerra com sonhos.
Partiu sob olhares saudosos.
– Inscrições no memorial do túmulo de Mana Fiogris, em Falssal, sul do reino de Albeia.


U
ma moça, talvez não sabendo ela o tipo de homem que eu era, perguntou-se em meio a muito quanta gentileza cabe no homem. Eu nunca parei para pensar uma boa resposta, e ao escrever estas linhas, tendo passado tantos anos desde que dei-me conta do olvido do pensar de tal resposta, ainda encontro-me em oblívio deleitoso e suspeito porque inocente demais: Não quero pensar sobre isso, porque pensar é ter que chegar pelo menos perto de uma resposta, e isto não quero. Não me apraz. Não me traz paz.

Não quero saber se nos corações, ou em qualquer outro local que digam haver um espaço para emoção e sabedoria, há um limite para quantidades de boas ações que auxiliem aquele que necessita voltar a crer na bondade da criatura humana. Em muitas linhas que escrevi denunciei nossa vileza, vilipendiei nossa caridade pois veste-se com trapos um monstro egoísta e falso, e mascara-se com ouro um mentiroso. Em muitas linhas que escrevi expus ao mundo a face má e cruel das gentes que somos, e como são maus e indiferentes os nossos corações.

Mas nas linhas que os olhos agora respeitados leem, ou nas palavras que ouvidos amigos captam, fique aqui registrado meu mais profundo amor e respeito pela dignidade, pela bondade e pelo altruísmo humano: falhamos miseravelmente em muitos momentos no ato de cuidar de quem se deixou dobrar por dores e tristezas, pelo fardo fatídico do tempo e prende-se pelo grilhão de um destino, mas há tantas horas para tantas almas que em sua grandeza demonstram abnegação e intensa generosidade de tal modo e com tamanha força que concluo do alto da segurança de meus anos de andança e pensamento que a caridade é um artifício dos fracos e ignorantes, mas uma virtude conquistada dos fortes e uma arma daquele que na vida é campeão.

O afogado não ensina o marinheiro a remar e cuidar das velas; o morto não pode falar ao aprendiz de boticário sobre cura e veneno. O faminto, seco em sua pele, não pode ensinar o pobre a fazer pão, e nem o cego pode ensinar a astronomia. Não se pode dar aquilo que não se tem, e por esta verdade vivem as civilizações desde muito cedo no mundo. Mas também não se pode dar aquilo que não se é, aquilo que não se conquista, aquilo que não se defende. O rei bom cede a parcela aos humildes, e dá um potro o fazendeiro generoso a um visitante agradável. Dá-se bons conselhos a quem tem a boa fé de os buscar, e oferece-se apoio em mão e braço forte ao que demonstra a Inteligência de a isto recorrer.

É da sorte do homem ser aquilo que defende, dar aquilo que é. E porque aqueles homens-monstro eram homens também, vi neles tanta crueldade e tanta maldade que me foi de pouco espanto ver entre eles presteza em ser hospitaleiro, na diligência de serem gentis. Eu adentrara os domínios de Kor-i-Sûm'Bar sob suas juras de hospitalidade, e tão logo eu cruzara os portões de seu grande forte, eu estava posto diante de uma tenda que se estendia com tantas outras ao longo da borda de um aclive que vigiava a praça baixa do grande forte.

O vento que cortava a colina era intenso e impiedoso em sua corrida contra o calor do sangue, mas eu detive Azandre do lado de fora da panaria ao puxá-lo pelo ombro e dar-lhe meu aviso:
“Falo agora contigo como se nem fosse meu aprendiz, meu favorito nas horas de reflexão e de agir com tato. Farás bem em ser diplomático com tua própria dor, meu caro Azandre, porque se aqui fora o frio corta a carne e gela o osso, a cena que há lá dentro cortar-te-á a paz e roubará o calor do teu coração.”

Ele não fez o esforço necessário para me entender, mas vi que tentara. Era obediente e espero o suficiente para ter tentado fazê-lo, mas estava demasiado desesperado para lograr êxito. Ele correu para dentro da tenda, e enquanto ele estava lá eu perguntei ao melhor curandeiro daquela gente o que acontecia:
“Como chegou até vocês uma mulher e como ela foi ferida?” e apertei o cabo da lança para advertir que não era apenas por curiosidade que eu perguntava – eu exigia verdade. O homem-monstro olhou com desprezo frio o meu gesto mínimo de ameaça.

“Podes pensar que atiramos nela ao saquear uma vila ou ao deixarmos que ela se aproximasse demais de nossas terras. Mas não. Kor-i-Sûm'Bar em pessoa encontrou-a jazendo no frio das colinas, seus lábios esfolados pelo vento e pelo choro. Ela estava só no ermo, e tememos que fosse bruxa que conjura encantos para obter sustento onde não há suprimento. Flechada ela já estava, e o veneno em sua flecha é desconhecido. Guardamos a seta matadora para que tu mesmo pudesses identificar seu fabrico.”

Virei-me para a vista do pátio e observei apenas a lonjura de minhas próprias lembranças. Assuntos de flecha e veneno, de bruxa e de choro... palavras que carregaram o foco de minha mente sempre presente para longe.

Eu, com cada pelo de meu corpo sendo ainda escuro, em nada lembrando a prata a mim dada pelo tempo, cheguei a uma vila qualquer em um reino úmido e nublado. Eu, com a companhia vazia de aprendizes ou guardas, errando sozinho pelos caminhos que mal e mal ainda buscava forjar, encaminhei-me a uma hospedaria que, naquele reino, era também prostíbulo. Lá me foi oferecida refeição decente, o banho revigorante e, como eu dera um pagamento alto em moedas estrangeiras, uma moça muito nova e de cabelos tão negros que se os corvos pousassem em seus ombros brancos eu os diria gralhas cinzas.

Mana era seu nome. Órfã desde que sabia responder perguntas, única responsável pelo casal de irmãos, crianças que adotara conforme cumpria a tarefa autoimposta de amadurecer. Isso porque o tio e a tia, únicos parentes vivos, forçavam-na à prostituição para pagar sua estadia.
E que flor rara era seu coração naquele charco imundo em que fora transplantada. Ela era um fino fio de pele boa e sedosa sobre a ferida infectada. Era um braço de água clara na poça estanque e suja. Um brilhante lapidado na pedraria ruim. Seu coração era sofrido, e sua mente acompanhava isso. Era fraca da vontade, sem esperança e convicção para ver além e pensar no avançado dos planos, mas era de extrema humanidade no ato de se doar. O fazia até fisicamente porque ela se deixava vender por ela e também pela irmã, criança demais, no pensamento dela, para ser dada aos passantes como prostituta crescida.

Eu ouvi sua história. Seu nome era Mana. Dei a ela a refeição que viera para me servir, e dei ao corpo cansado dela as águas do banho que ela preparara para mim. Na cama em que ajeitara os lençóis para me satisfazer, eu a satisfiz com toda a urgência e todo o temor em meu ser em ser capaz de dar-lhe paz e prazer. Apavorou-me a ideia de não a deixar com a satisfação plena, ainda que fugaz, do corpo seduzido. Eu me entreguei a ela de tal modo que seu corpo faminto não objetou em aceitar, de tal modo que sua humildade não achou educado recusar, de tal modo que sua gentileza viu-se honrada em aceitar e abusar.

Eu parti, e ainda era eu incapaz de libertar aquela jovem de seu sofrimento. Estava eu em um momento de minha vida em que minha alma estava eclipsada, a um tempo em que toda a Arte me abandonara quase que por completo e que eu não me lembrava de quase nada do que eu era ou poderia ser. E ela me fez prometer cumprir minha promessa como se fossem necessários sua ameaça e seu choro para que eu de fato o fizesse: Levei Bruna e Irgeu comigo, um em cada uma de minhas mãos, para longe daquele lugar horroroso. A menina eu deixei sob a guarda das Rosas, e ela saberia usar o aço de tal modo que jamais ousariam dobrar a ela como dobraram sua irmã. O menino eu levara para Fárgia, e ele ficou no colégio naval e mercante do reino após assinarem ali um contrato em que se comprometiam em fazer dele homem competente ou, pelo menos, homem bem-suprido de chances de sucesso.

Demorou muito até eu saber que Mana estava grávida. Ela bebia o chá de sombra-da-noite e comia o micelo das capas-de-monge, mas engravidara. Eu a impregnara. Ela baixara as resistências todas de seu ser quando eu espraiei meu corpo de homem sobre seu corpo de mulher, a onda deitando-se na praia, e de tal modo foi sua entrega que minha semente chegou ao foco feminino onde reside em forma de carne a esperança das vidas possíveis. Eu a impregnara. Ela o sabia: assim que ficara grávida, expulsaram-na do prostíbulo seu tio e tia. Mas ela sentia a criança ainda diminuta em seu ventre a guiando nos pensamentos e nos sonhos, e a todo instante rimava em sua mente de modo que suas palavras a levassem em meu encalço.

Encontrou-me, enfim, quando eu voltava para o norte. Já então ela tinha o volume da nova vida sob o preto apagado do vestido fino e surrado pela viagem. Uma jovem mãe, sozinha e abandonada de todas as maneiras possíveis senão pelo seu filho que ainda não viera e pela esperança que acende a menor vela no salão escuro da vida.

Ela era tão jovem. Eu tinha minha alma apagada, não sabia nem mesmo quem era o Varyn de que todos falavam à minha passagem. Mas no meu desmemorio eu cuidei dela. Fiz o parto de nosso filho em uma choupana pobre e meio abandonada, numa noite fria e estrelada. Houve tanto encanto naquele ato de nós três nos abraçarmos que os feitiços mais velhos em mim se partiram e novos foram feitos. Eu recobrei minha memória e Mana estava mudada, algo de mágico entranhara-se nela, preenchendo com a essência mais pura e forte da Arte as lacunas que a dor e a tristeza haviam aberto em sua alma. Foi o dia em que ela parou de envelhecer e em que ela encontrara toda a força que precisava para deixar definitivamente a vítima tornar-se a heroína de sua própria vida.

Eu me lembro daquela noite, quando ela e eu ficamos abraçados a Virgílio, nosso filho. Uma criatura tão pequena não podia ser tão perfeita. Mas era. Nascera das dores tristes porém apaziguadas de Mina, e de meu desmemorio confortado pela confiança. Se algum dia houvesse mal naquele menino, seria suprido pela mão randômica mas incomensuravelmente sábia e certeira do destino. Ficamos em silêncio no ato de ver o filho sugar do seio da mãe o sustendo branco para a vida, e aquele silêncio estrelado durou horas, o resto da noite inteira. Foi a noite mais feliz de minha vida.

“Ela o chama, Varyn, meu mestre.” E Azandre se retirou com passos destroçados e o rosto desatado em choro de irreparações.

Eu passei pelo couro e pela pele da tenda, e foi como se eu entrasse no passado perdido. Confundi-me: Entrava eu no futuro de dor.
Estirada sobre pelegos no chão, uma mulher em trajes negros amargava os últimos suspiros sobre um xale roxo. Ela ainda era tão linda, imutável em sua beleza encantada. Fios de prata misturavam-se ao negro de seu cabelo, como se fosse o trabalho de aranhas fiandeiras sobre o próprio céu noturno. Se um dia conhecemos nosso filho, ela superara as dores do passado e conhecera o amor sincero e avassalador em Azandre, um pupilo, e desde cedo eu sabia que aquela união seria verdadeira, porém passageira. Ali findava-se, completo na fatalidade, outro agouro meu.

“Depois que nosso filho morreu, ainda tão cedo, eu pensei que jamais eu sentiria de novo meu peito queimar com a força da vida.” Ela sorria aliviada porque sabia que podia falar comigo direto em pensamentos, pois sua voz já havia morrido dentro do peito sofrido.

“Mas conhecestes Azandre, que mostrou-te amor desde o começo do amor. Foi diferente do que tiveste de mim. Tiveste dele e nele a promessa de uma vida tão boa e feliz que pareceu-te um crime pensar que tal felicidade pudesse um dia fazer-se maior.”

“E ainda assim, meu caro, em diversos momentos fez-se maior. Vi Bruna trançar nos cabelos negros as fitas vermelhas e brancas das Rosas, e sei que ninguém jamais a ferirá mais do que ela pode ferir alguém. O aço canta nas mãos dela. E Irgeu cruza o mar interno de tal modo que as águas entregam-se a ele como amantes. Lembro-me bem de quando ele atracou trazendo pela mão sua esposa, mãe de seu filho. O parto dela foi sobre as ondas mais altas do interno. Foi belo.”

“É belo porque ainda ocorre. São fatos que conhecem ainda agora o toque do tempo quando este passa em forma de presente.” E como falávamos de mente quieta para mente quieta, em nossos sofrimentos, tudo era silencioso. Abri para ela janelas no espaço, e através delas ela pôde ver sua irmã, alta e taluda, forte e sagaz, praticando contra o ar as voltas de sua arma de aço dobrado, e no olhar duro e resoluto dela brilhava a centelha inegável da liberdade e da confiança, de tal modo que Mana viu-se vingada. Nunca fariam dela a mulher vítima e submissa que um dia Mana tivera de ser.

Pela outra janela ela viu Irgeu negociando a compra de arpões novos, mas ele conhecera uma mulher que barganhava ainda melhor que ele. Onde estava o sobrinho de Mana a janela não mostrou, mas era uma criança forte e feliz, isso sabíamos.

Fechei aquelas janelas porque ela começou a chorar, e nem seu choro produziu som.
“Morro agora, Varyn. Espero haver mais do que sombras e esquecimento na vida tumular, pois muito gostaria eu de rever Virgílio, nosso filho partido cedo.”

Tomei a mão dela na minha.
“Não há mais nada que prenda você a um mundo sofrido, Mana. Tudo aquilo pelo que você lutou foi conquistado. Não há derrota em você. O veneno e a flecha simplesmente servem de desculpa. É hora de aceitar que não há mais batalhas para serem lutadas. Nada mais para se garantir. A felicidade de seus irmãos, a liberdade de sua alma e de sua carne, a felicidade de seus dias... Tudo isso veio. Não há vergonha ou pesar em partir.”

“Queria ter tido tempo de carregar mais vida dentro de mim. Deixar-me impregnar por Azandre. Eu teria feito um filho lindo, ou a mais bela e forte das mulheres deste mundo. Em meu ventre eu teria trançado a carne de tal modo que a criança seria desta era o maior legado... Mas meu ventre perecerá envenenado, como todo meu corpo...”

“Mas não como sua alma. A dignidade não morre envenenada, nem a liberdade se fere com flechas. Você parte inteira, íntegra em cada componente.”

Ela cessara o choro. Sorria. Preparava-se para partir. Que raro é este, o dom de preparar a ida derradeira. Eu devia sair.
“Você é gentil, Varyn. Não sei dizer quanta gentileza cabe em você.”

Beijei-lhe a testa porque morria com ela a última parte viva de minha memória mais preciosa, mais amada. Levantei-me, sorri também.

Azandre ficou com ela na tenda. Seria ele a testemunha de seu último suspiro.

O vento invernal estava mudo em minha cabeça. Eu escutava apenas minha voz, mas ainda falava apenas nos meus pensamentos.

“Mana foi flechada.” E eu tinha em minhas mãos a flecha que roubara a vida dela.

“Ela foi emboscada na carreira urgente que fez em vir até aqui para avisar a mim...” E eu vislumbrei a armadilha que fizera ela ter de sair da segurança para vir até mim.

E tudo que pudesse ter som ficou mudo.
“Ela será vingada.”

Pensei comigo que a pira dela seria uma chama singela diante do fogaréu que engoliria seus assassinos.

sábado, 26 de abril de 2014

As Rosas e o Punhal, Crônica Três, Parte II

Homem vem, homem vai. Kor-i-Sûm'Bar fica.
Homem nasce, homem morre, Kor-i-Sûm'Bar cresce.
Povo de homem planta, povo de homem constrói. Povo de Kor-i-Sûm'Bar pilha, povo de Kor-i-Sûm'Bar queima.
Homem se arma, homem se cobre de aço. Kor-i-Sûm'Bar mata, Kor-i-Sûm'Bar se cobre de sangue.
Inverno vem, homem fica. Inverno vem, Kor-i-Sûm'Bar ataca.
Kor-i-Sûm'Bar mata. Homem morre.
Inverno vai, povo de homem morre. Inverno vai, povo de Kor-i-Sûm'Bar fica.
Inverno vai, povo de homem nasce. Inverno vai, povo de Kor-i-Sûm'Bar cresce.
– Pictogramas bélicos traduzidos de velinos nas Colinas de Forragem, anexos de "Sobre os Homens-Monstro", escrito por Featta, o Gago.


Q
 uem sabe dizer onde a humanidade começa e termina dentro do homem? Via de regras, associar um ato à noção de "humano" serve tanto para enaltecer quanto depreciar: Deu aquela senhora uma moeda ao mendigo feridento, dirão que seu ato foi humano. O irmão avarento apunhale seu próprio irmão por causa de herança, dirão que é do ser humano agir assim. Ser humano é ser monstro ou é ser virtuoso? Digo eu, sem maiores problemas, que ser humano é ser inconstante; É ser a nau que leva mercenários para melhor perpetrar a barbárie, e ser a nau que leva os refugiados para longe do conflito para auxiliar os que sofrem.

   Ser humano é não saber ser direito, não saber interpretar facilmente. Somos, ainda, deveras limitados em nossa compreensão de atos e fazeres até mesmo corriqueiros. Não sabemos, afinal, o que achamos que é certo ou o que é errado. Sabemos apenas que fazemos, e se alguém nos pergunta depois, pode-se encontrar conforto ou alívio ou contrição no conselho vindo de outro ou de nossa própria mente no dizer que fizemos aquilo que achávamos que era direito fazer. Se de fato o é, se de fato o foi, digam as horas.

   Ser humano é ser vítima constante da aflição. Estávamos Azandre, um mercador néscio e eu, Varyn, riscando as paragens quietas das Terras Algeíades em minha quadriga de ferro puxada por cavalos negros. As bestas quadrúpedes, tão mais amigas do homem que o cão por terem de acompanhá-lo na batalha, bafejavam o calor de seus corpos em nuvens imensas de vapor conforme aumentava o frio que regelava os músculos de homem e cavalo.
   A quadriga era de ferro, mas leve como a de madeira porque fora dobrada sob martelos cheios de encanto e runas, cujos cabos eram de madeira nobre e retirada do coração de florestas já dizimadas. Cada peça saiu do fogo azulado das forjas dos Magos e foi esfriada em água fria do gelo derretido, tenho refletida na superfície a luz das estrelas além.
   Estrelas essas que eram visíveis nas crinas esvoaçantes dos cavalos, em seus dorsos e flancos, pois era noite em sua pelagem de tal modo que pareciam estilhas do céu noturno. Também eles eram mais Magia do que besta, animais feitos de sangue, carne, osso e também da Arte, desenhados e paridos para melhor servir aos interesses da Convocação. Eles corriam tão velozmente puxando nossos pesos e mesmo assim ultrapassariam os mais saudáveis dos cavalos selvagens das Algeíades, famosos por suas carreiras imbatíveis.

   A viagem, em terreno irregular pelas colinas, foi ficando mais fácil porque as Colinas de Forragem eram circundadas por campinas extensas de onde brotavam as elevações que davam nome ao local. Como toda a grama das Algeíades, a cor do chão era de um verde pouco agradável, de uma monotonia quebrada apenas pelo branco gelado e salpicado das flores da tundra.
   Encimando muitas daquelas colinas estavam ruínas de fortes ou postos de vigia de outrora, e muitas destas estavam ocupadas por novos donos: os homens-monstro que habitavam o Norte, uma estirpe selvagem cuja pele era couro e cujo sangue era verde e frio. Eram homens horrendos à distância, pouco menos que bestas de perto: saíam de suas bocas os dentes, grandes e afiados em demasia, e seus narizes eram pequenos, obra de pouco faro. As orelhas eram quase grudadas à cabeça, evitando assim o frio cortante, e os olhos eram grandes e escuros, mostrando a selvageria acima da mandíbula pronunciada do crânio.

   E se as faces eram desprovidas de qualquer chance de beleza humana, pois à parecência de bestas também estava associada a abundância de ângulos retos e a ausência de curvas suaves, o corpo era ainda mais espantoso: os músculos duros como pedra pareciam naturais, pois não havia um de corpo fraco ou moloide entre seus números. Eram de largura superior à dos homens mais fortes, e sua altura superava a de muitas estirpes dos reinos de gente. Com a mão nua, pinça de aço, podiam quebrar o pulso ou o pescoço humano como se fosse por gracejo distraído. Que útero tão monstruoso poderá ter parido primeiro aquela gente, que já foi humana um dia?

   Mas quem fazia essa pergunta eram os mais simples, ignorantes da verdade ancestral: Eram aqueles seres, ogros do Norte, o que restou de experimentos torpes há muito esquecidos. Gente dada às magias do sangue e da carne uniram na cópula tantas espécies diferentes que por fim houve o parto de uma linhagem numerosa do que seria a gênese dos homens-monstro. Aqueles orcos eram selvagens e brutos, mas um diaforam responsáveis pela proteção de tantas cidades e vilas humanas que ninguém ousaria pensar-lhes mal se soubessem a verdade.
   Só que tal verdade foi esquecida pelos homens, enterrada na cova funda da ingratidão; e o que a vergonha dos homens fez com essa verdade, o orgulho, a vergonha e o ódio justo dos homens-monstro fez melhor. Não mais suas gerações novas lembravam do passado de servidão à raça que os espezinhava desde que se lembravam.

   Porém nem sempre as coisas foram tão amargas. Se de tempos em tempos eles atacavam vilas, aldeias e caravanas, queimando, matando e pilhando, em outros tempos comerciavam e estavam abertos ao diálogo. Suspeitam os cientistas de feras e monstros entre os Mudadores que esse comportamento de paz e interesse é intercalado com períodos de violência de acordo com ciclos estabelecidos no sangue dessas criaturas, que por não plantarem e pouco inventarem pegam o que precisam de quem o tem. A geração pafícifica e cultural sobrevive com o que a geração violenta pilhou e deixou de herança, além de caçar seu sutento e fabricar apenas as armas que usam com presteza e as tendas e barracões de pele animal onde se abrigam do frio.

   Até o acampamento de uma das tribos daquela gente monstro que nos levou o mercador assustado e trêmulo. meus cavalos não precisavam de comando ou chicote - apenas o meu pensar os guiava, se eu segurasse as rédeas. A quadriga subiu por um aclive tortuoso, em zigue-zague, até o portão de madeira e ossos enormes que permitia o acesso a um forte de homens-monstro.
   Postos empoleirados acima do portão estavam três monstros: harpias que vieram do sul há tanto tempo que deviam estar já acostumadas ao frio. Tinham bocas enormes cujos dentes eram tantos, como agulhas, que suas línguas eram couro grosso após tantas cicatrizações necessárias. As cabeças calvas eram feias, da base do crânio redondo pendiam mechas de cabelo seboso e cinzento. As asas eram negras, imensas, e braços raquíticos as uniam ao poleiro acima do portão, estando desse modo agarradas a um tronco fino e firme com seus dedos longos terminando em garras de navalha.
   "Olha, olha a carne que vem tão preste até o portão dos monstros-homem!" disseram as três, em coro. Suas vozes faziam mal a quem ouvia e matariam os sensíveis pássaros canoros de tão feias e estridentes "Olha, olha que lá vem um coração bom e quente para cada uma de nossas bocas famintas!"

   Os cavalos empinaram todos ameaçadores, batendo no ar seus cascos de fender crânios, com ferraduras de partir ossos. Escoicearam o vento, e sua violência possante fez as monstras horrendas ganharem os céus como morcegos enormes, apenas para voltarem ao poleiro depois de grasnarem assustadas.
   "Eia, eia que estes cavalos têm estrelas no pelo. Eia, eia que há um Mudador com a mão esqueda nas rédeas, e ele tem na mão direita uma lança que fende corações!"

   E tanto estardalhaço chamou os ocupantes do forte para a paliçada, e de cima das torres do portão eles apontaram para nós olhos monstruosos e flechas de ferro.
   "Quem é que aqui vem, até Kor-i-Sûm'Bar, senhor de crânio largo e língua vermelha, rei de flechas e senhor de fortes?" Inquiriam as harpias com voz de gralha.

   Fiz a quadriga virar, de modo que bati com a lança no portão. O eco da pancada foi muito mais alto e fez vibrar as toras muito mais que qualquer um que visse meu gesto poderia julgar possível.
   "Bate ao teu portão Varyn, o Agoureiro. Abra a porta para mim, gente de Kor-i-Sûm'Bar, que venho eu atrás de uma mulher ferida de morte!" e o pesar em minha voz escapou tão rápido que eu não pude detê-lo, e foi o suficiente para fazer manchar de negro e murchar a casca das madeiras do portão e amarelar os ossos enormes que faziam-lhe o arco. Penas feias e negras caíram das asas das harpias, que de novo falaram:

   "Ai, que vêm um coração envenenado de tristeza para matar-nos com pesar! Ai, que nossos dentes quebrariam roendo seus ossos pesarosos, ferindo-nos com tristeza! Ai!" E saíram voando para longe, e não voltaram. Ao invés disso levantaram os portões, e diante de mim e de minha companhia estava posto um homem-monstro enorme e ameaçador de tantas maneiras que meus cavalos começaram a patear nervosos o chão e Azandre levou a mão à espada. O mercador que nos guiara tremia.

   "Kor-i-Sûm'Bar! Kor-i-Sûm'Bar" Gritavam vozes indistintas que vinham de dentro do forte. Nem soube eu dizer se eram só de sua gente ou se também eram vozes da colina, que também temia seu senhor. Louvavam-no como se adula uma fera imensa no escrever - mais por medo do que por admiração.

    "Várias flechas voaram de sua mão, Varyn, e lanças de fogo crivaram meu povo há muitos anos quando, a cavalo, você derrubou o pai de meu pai em batalha. Odeio aquele que matou meus ancestrais, e lutaria para ver cortada a sua garganta se a hora fosse outra."

   Sem me mover na quadriga, eu respondi:
   "Que seja essa hora de grande valia, Kor-i-Sûm'Bar, Senhor do Portão das Harpias, pois senão ponha de lado seus préstimos, arme-se com ferro e lembranças e vem, luta pelo corte em meu pescoço, que ei-lo aqui proferindo e aquecendo o vento das Algeíades!"

   O silêncio que veio foi tão pesado que apenas o vento silenciava o bater acelerado de tantos corações. Um cavalo riscou o chão quando Kor-i-Sûm'Bar deu um par de passos para trás, estendendo o braço imenso:
"A hora é de grande valia, e hoje respeito Varyn, o dos cavalos negros, o amigo de nosso povo que o salvou da fome ao mandar para cá as caravanas de pão e de carne salgada, evitando assim que saqueássemos as redondezas já pilhadas e que tivéssemos de passar o inverno roendo ossos e madeira de cupins. É por este mérito, e por amar quem auxilia meu povo que eu o levarei até a tenda onde falece aquela que chamou seu nome antes do veneno maligno roubar-lhe tanto da voz!"

   Encaminhei a quadriga para dentro do forte. A passo lento, para que Kor-i-Sûm'Bar nos acompanhasse, e com ele, dezenove guerreiros de sua gente, armados sobretudo com o pavor que suas silhuetas selvagens impunham. Era sabido por muitos que o cheiro daquela gente também causava pavor, e que suas vozes também, e que também apovoravam mais ao mostrarem-se numerosos. Que terror devia tomar conta dos simplórios ao verem descer das colinas, ao seu encalço, uma turba daqueles orcos pavorosos.

   Mas estávamos ali como convidados de grande urgência. Kor-i-Sûm'Bar ofertou-me sua hospitalidade, e desse modo eu sabia que estávamos todos em chão seguro. Ele esperava assim pagar uma dívida que sua tribo tinha para comigo, e só então eu lembrei que de fato eu enviara para as Algeíades carroções e bois carregados de mantimetos invernais para que os saques parassem. Tributo ao monstro, eis aí uma das mais antigas coisas que acontecem quando o humano e a besta se encontram.

   Se o tributo pago era coisa humana, no que tange o certo ou o errado, as horas diriam. E se era humano o ato que levava à morte lenta e agoniada de Mana, as horas o diriam. E quantos de nós ali presentes chorariam sua morte, eu já posso atalhar: Azandre estava tomado pelo medo de perder a noiva. Eu, contudo, perdia uma amante do tempo passado.
   A mãe de um filho meu estava, talvez, prestes a se unir a ele no sono dos que para as tumbas vão...   

terça-feira, 22 de abril de 2014

As Rosas e o Punhal, Crônica Três, Parte I


Crônica Terceira – Do tempo em que Azandre reconheceu o amor e o desespero tão próximos, duas vezes; E de como os assuntos com a Casa de Stabellir tornaram-se nefastos e maus.
Datação – Últimos dias de Fevereiro, Norte das Colinas de Forragem, terras dos selvagens de Kor-i-Sûm'Bar.
Arquivo – Pessoal
Segue-se agora o relato de acontecimentos de sonhos e terror, mistérios desvelados e maravilha, como contados por mim, Varyn, Cronista-Mor-e-Primeiro e Agente de Campo da Convocação dos Vários Caminhos, Arquimestre no Conselho e homem há muito vivendo.



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O
 sábio desconfia do libelo de sangue. O sábio é, antes de tudo, cauteloso demais para se colocar sabedor de toda a verdade e precavido o suficiente para não ser ignorante. Assim, por segurança e humildade muito necessárias, pergunta, questiona. Por serenidade e por orgulho, contempla, analisa. É da sorte dos que pensam e no pensar se demoram querer desconfiar até as últimas minúcias antes de declarar confiança de algum tipo.

   Que há mortos que caminham entre os vivos, esta é uma constatação aterradora sobretudo porque é real, e triste. Que alguns deles operam encantos, habitam a espreita sob os espelhos d'água dos lagos, assombram o pó ou gemem incorpóreos além do túmulo, isso também passe por real, pois o que vi não fantasio com o tom da mentira.
   E há os mortos que, para manterem saudáveis as carnes malditas, aguam-nas com o sangue de vivos de um ou outro jeito.

   Acaricia as veias da amante o amador, mas não é o sangue seu objetivo, e sim que seja este sangue mais ligeiro, corando a pele e atiçando a amada. Há, neste caso, a certeza necessária da presença das carnes vivas e amáveis entre a veia e a superfície, por onde passam os dedos dedicados em uma carícia que até as mãos mais rudes e cruéis podem executar se guiadas pelo sentimento sensível das paixões.
   Há, contudo, aquele monstro cuja carícia requer dentes e dispensa as mãos, e ignora a pele rasgando a carne. Um tipo de beijo que exige caminho livre entre a boca e a veia, que dá ao sangue a opção de correr por leito mais ávido e externo que não leve ao coração sempre exigente, mas ao ventre sempre faminto.


   Estava eu em mais uma missão a mando da Convocação dos Vários Caminhos. Era do interesse do Conselho de Guerra que limpássemos o nordeste das Terras Algeíades para que por ali pudessem vir os reforços do sul e do oeste, para que estes encurralassem nas montanhas as tropas que se por ali não fossem detidas, marchariam sobre Fárgia e Corcaresse. Eu há muito já vinha avisando que as turbas inimigas teriam passagem livre para atacar Deltim, em Auglandoc, mas meus avisos vinham sido ignorados desde que a vitória sobre o inimigo avizinhava.

   Os exércitos de Corcaresse e de Nudâmia estavam há mais de meio ano em guerras de vai-e-vem contra as hostes de homens do norte que desciam das terras glaciais portando as bandeiras de seus senhores cruéis. Os reforços mercenários que a Convocação contratou e os guerreiros desconjuntados que eu mesmo reuni nas Terras Algeíades foram de grande ajuda para a campanha de derrota dos invasores. Lutávamos então contra as hostes de Serpo de Uma-Mão e de Vailirendaro, o Infanticida. Os dois haviam feito aliança para tomar as Algeíades e o norte de Nudâmia. Haviam arrasado mais de quinze vilas e trinta aldeias ao longo do longo tempo de campanha. Chegaram a tomar duas cidades, mas foram expulsos quando os reinos ao sul começaram a reunir e enviar tropas para repeli-los.

   Homem sujo e vil, Serpo fora um rico mercador de Fárgia que muito aprendera em suas viagens, homem com o qual eu mesmo conversara muito em tempos idos, quando as estrelas mostravam-se mais alegres nos céus sobre os rios. Mas é dos homens perder a sabedoria muito facilmente quando sua bestialidade é mais bem-alimentada e quista do que sua racionalidade e reflexão, de modo que na altura em que estava eu emerso na campanha de livramento das Algeíades, não mais eu reconhecia o bom mercador com quem um dia conversei. Serpo tornara-se um bárbaro cruel e devoto apenas do frio sem cor e esfaimado do norte. Ele comandava mercenários, corsários de péssima fama e inglória, e em meio a saques de terras antes pacíficas ele perdera uma de suas mãos quando tentou violar uma donzela das Algeíades, anos atrás. Ele nunca esqueceu a ferida, mas aquela menina que o cortou ainda vive, desejando desesperadamente cortar a outra mão para fazer par ao membro que ela decepou quando criança.

   Mas não falarei agora dos feitos desta mulher, que agora anda armada com espada de aço e armadura das Rosas. Falo agora de Vailirendaro, aliado de Serpo na má empreitada de tomar as Terras Algeíades. Este adquirira para si várias alcunhas cuja associação seria insulto mortal para o homem decente em seus feitos. Ele matara seu pai quando criança ainda e deu destino parecido à mãe quando esta voltou da guerra. Sua índole era extremamente cruel desde cedo, talvez desde sempre, se amargasse no útero materno o fel da vida por vir. E nos eventos cercando o ato de nascer é que ele já ganhara a alcunha de infanticida: Viram o ventre materno parir gêmeos, um estrangulado no fio da vida que o ligara à mãe, o outro segurando o cordão do enforcamento sem chorar, como se tivesse sido ele o algoz de tão pequena vida. Vailirendaro nascera já com o assassinato escrito na fronte, e mesmo que do fratricídio precoce fosse inocente, dos que se seguiram não foi: matou cada irmão, bastardo ou não, e não me atrevo a dizer os fins que deu até mesmo às crianças de colo que arrancou dos braços das mães. Ferveu o próprio filho em caldeirão, atirando-o em um quando o julgou fraco, matando também a mãe por acusá-la de ter gasto em vão sua semente.

   Este homem de avérneas ações está marcado para morrer pela mão de um homem justo e inocente, assim profetizo eu ao escrever estas linhas.

   Acontece que em tal momento, quando organizávamos o último assalto contra as hostes de Serpo e Vailirendaro, chegou ao acampamento uma notícia horrível demais para que eu aceitasse que outra verdade triste cumpria-se sem que eu antes tivesse tido visão sobre o acontecimento dela. Estava eu, então, na companhia de Azandre e de Sarão, meus discípulos mais velhos, cuja pouca idade diferia entre um e outro por apenas um ano mal completo. Eles estavam emersos no tempo da guerra, e o primeiro estava frio e resoluto como o aço forjado para a matança, enquanto o outro tremia convulsivo sob sua pele, exigindo a toda hora a carreira e estalar dos músculos para que houvesse ação.

    Por isso eu mandara Sarão para as linhas de frente, com setenta homens mercenários. Não era dele o comando, contudo, pois Sarão é o soldado da linha de frente que enterra a lança ou gira o machado com a boca aberta e o pescoço estendido para melhor sentir o sangue arrancado do inimigo. Azandre é que mostrava os dons do estrategista e do comandante, mas então ele estava comigo no acampamento principal das tropas do fronte. Na tenda maior estivemos ele, eu e os sete generais, buscando liberar aquela região toda do flagelo cruel vindo do norte. Durante toda a reunião Azandre permaneceu calado, mas eu lia em seus pensamentos meticulosos e reservados que ele pensava melhor que muitos dos melhores estrategistas presentes. Em ver que ele não demonstrava toda a sua sabedoria através dos olhos resolutos e que ainda assim ele sobrepujava a muitos homens velhos em sua perspicácia, eu enchi-me de orgulho.

   Acontece que ao fim da reunião voltamos à nossa tenda de campanha, e lá esperava um mensageiro de improvisos: homem assustado mas de passo largo e firme, era um mercador trajando peles e couro e cheirando a gordura e estrada.
“Senhor Varyn, é de urgência que venha comigo, senhor!” Lembro-me eu melhor dos gestos e olhar desesperados e claudicantes do homem do que de suas palavras que apenas tentavam dar cor ao seu tormento “Mana está ferida. Flechada. Envenenada. Morre, senhor, hoje ao anoitecer.”

   A armadura protege bem o homem e não denuncia sua tremedeira do medo, e pouco muda se ele está paralisado em espanto ou terror. Mas foi a mão que deixou cair o florete e a boca que soltou palavras desoladas que denunciou a fenda aberta no espírito de Azandre:
“Minha noiva... Minha noiva morre...”

   E minha quadriga negra partiu veloz em direção a uma tenda cercada por monstros onde uma jovem jazia estirada com uma haste mortal enfeando-lhe o seio branco e fazendo esfriar seu sangue quente.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

As Rosas e o Punhal, Crônica Dois, Parte VI

Ontem de manhã um de meus pupilos perguntou se o Mito do Labirinto, de Tentanagos, no qual um homem passa horas a fio andando por um labirinto procurando uma saída que ele eventualmente descobre não existir, serve como alegoria para os momentos de alegria. Tal pergunta, cuja reflexão despertada aqui registro, é curiosa: Há labirintos em que nos colocamos nos momentos de tristeza e aflição, dor e medo, e acreditamos que há saída deles. Mas e nos momentos de alegria, de bonança, de prazer? Há labirintos para a mente neste momento também? Discutimos o que Xantaca e Eurextímenes escreveram sobre felicidade e ilusão, mas ao final da aula, ao deitar minha cabeça sobre o travesseiro, eu ainda me perguntava o que o discípulo havia me perguntado. Então sonhei com uma mãe dando a luz, mas a corda da vida que a prendia ao seu filho alongou-se por metros sem fim e a envolveu em um labirinto. Então, no sonho, vi um marinheiro finalmente regressando ao seu lar e à família, mas as ondas crispavam-se em um labirinto de espuma e correnteza. Então vi o gado, gordo e saudável diante da família de camponeses orgulhosos. Os chifres e as ancas dos animais organizaram-se em um labirinto terrível sobre as colinas. Eu recebera em meu sono a resposta conforme os Deuses a sopravam para mim... A tristeza é o caminho curto e reto. O corte da tesoura da parteira, a proa riscando o mar ao deixar o porto, a faca abatendo o boi. A felicidade é o labirinto, sem alegorias. As idas e vindas do parto, a longa viagem para o lar, a espera da vinga do gado. Da alegria, pelo contrário, não há uma maneira de achar saída. Ela nos desorienta e nos faz incapazes de vermos qualquer caminho promissor porque aceitamos que todo e qualquer caminho é tortuoso. Se há um inimigo para a Razão, que cega a mente e a torna incapaz de tomar o caminho mais claro para o entendimento das coisas, eis o seu nome: alegria.

– Estudos de Messireme, Filósofa de Lessara



O
s ventos que trazem são os mesmos que se vão levando embora, com o tempo, algo daquilo que com eles veio. Assim é o ciclo da mudança. Dá-se algo para receber outra coisa. Perde-se aqui para ganhar-se algo adiante. Nunca é certa a noção de falta ou do ser incompleto – se algo faz falta é porque foi preenchido por outra coisa que veio no momento da perda.

   Perde-se um amigo, perde-se um lar, perde-se um bom negócio, perde-se uma chance única... Ganha-se uma longa fila de memórias, ganha-se um rol de avisos que ficam cifrados na carne, ganha-se a cautela sem a qual a vida não segue.

   – Eu estive esperando por tal momento há muito tempo! – ouvi quando diante de mim o vampiro fez-se uma fonte de ódio frio. Mas não fora a criatura má que o havia dito, tampouco Viatra, que estava amarrada e estática em um dos pilares do salão.

   Aos poucos uma sombra imensa tomou conta do chão e da parede do fundo. Alguém entrara por uma das portas principais, por onde há pouco haviam trazido o prefeito de Varuzal. Era um homem encapuzado e munido de espada, sua voz ecoara no silêncio de modo imperioso.
   – Eis que vejo uma face conhecida se aproximando, pisando agora as cinzas de meus inimigos vencidos – disse eu, apertando a lança em minhas mãos – Mas vem o portador de tal face como amigo ou como inimigo?

   – Vem como homem em busca de vingança e em busca de informação.

   A mulher vampiro desceu da cadeira sobre a qual estava em pé e tomou do punhal que usara para abrir as veias do prefeito. Tinha na outra mão o cálice de onde sorvera o sangue. Sua nudez branca como a morte fora manchada por sangue, o que deixava ainda mais selvagem e ameaçadora a sua aparência. A face estava dominada por uma expressão selvagem e terrível que até meus olhos, tão acostumados com as feras, tinham dificuldade em discernir ali algum brilho restante de humanidade.
   – Você, bastardo! – ela vociferou conforme o homem de capuz aproximou-se de nós três – Vim em seu encalço degolando e apunhalando, e eis que quando perco seu rastro nauseabundo é porque estava escondido debaixo de meus pés!

   – Pisou-me porque assim deixei, condessa – disse o recém-chegado, enchendo o ar com a surpresa. Nunca imaginaria eu que aquela criatura vil tinha títulos nobres – Eu estou aqui há dias e mais dias, mais do que você mesma estava. Por meus feitos os refugiados que por aqui passaram tiveram comida, abrigo e alívio. Tudo o que não pude lhes dar foi nova terra e boa esperança. Tudo o mais garanti que Varuzal lhes desse.

   – Porco! Cão chifrudo! Besta linguaruda! Vou voltar para o norte com seu coração nos meus dentes! – e ela pulou sobre o homem como um gato sobre o rato, de modo que nenhum ser humano era capaz. Talvez a falta de decência e de uma alma a deixasse assim mais leve e ágil.

   Mas o recém-chegado não a recebeu como presa surpresa. Atracou-se com ela de modo não menos feroz, e grunhiam e berravam conforme um combate animalesco tomou forma no salão. Atacavam-se com punhais e com a pura força profana de seus braços.
   Fui até Viatra, a enviada da igreja de Selmar, e libertei-a dos nós que a prendiam. A mulher então virou para mim a face vendada, e seu lábios pintados de branco finalmente esboçaram alguma emoção. A fúria.

  – Mataram meus soldados. – e os fogos do salão, apagados quase todos, acenderam-se de pronto – atiraram os livros de Selmar no estrume e no sangue dos porcos! – e as chamas elevaram-se, lambendo as paredes do salão e saltando para fora das lamparinas, archotes, velas e braseiros – depois queimaram cada página do livro sagrado em fogos onde assaram seu alimento sujo! Cada livro de Selmar é uma obra sagrada, um pedaço de Selmar no mundo. E eles profanaram essas relíquias manuscritas após terem vilmente encomendado tantas sob o falso pretexto de divulgar a fé!

   E o grito que ela emitiu foi cheio de dor e revolta, a revolta que os crentes sentem ao verem violadas suas frágeis ideias de verdade. Haviam insultado e atacado o que ela queria inatingível e prístino, e por isso mesmo eu não conseguiria dissuadi-la ou sugerir-lhe o pensamento racional.

   Conforme as chamas no recinto tomaram as formas de asas que esvoaçavam um incêndio pelo salão, os dois nortistas estava digladiando de maneira animal. Já haviam dispensado os punhais, e ela arrancara quase todas as vestes dele. Nacos de carne faltavam nos corpos de ambos, arrancados a mordidas.
   Eu saí do salão envolto em chamas e fumaça branca, deixando para trás Viatra, que parecia um pilar de mármore pintado no centro da sala incendiada. Parecia-se em algo com uma estátua que ornasse um templo saqueado.
   Também deixei para trás a mulher vampiro e seus embustes, perguntando-me porque ela viera em perseguição de tão longe.
   E deixei também Elão de Varraquêz, o vampiro que eu encontrara nas montanhas longe dali numa hora de exterminar bárbaros.

   O prédio queimava em pouco tempo. O fogo da revolta selmarina quebrara as janelas com mais presteza que a de vândalos ensandecidos. Mas esse som foi quase abafado, pois o que exigiu mais de minha audição foram os gritos da mulher vampiro que saíram do prédio e ganharam meus ouvidos:
   – Vieste de longe, cavando um caminho para uma enchente de encardidos! Pastor sujo que guia uma vara de porcos covardes! Seus refugiados morrem agora, e morrerão todos antes que eu mesma morra!

   E eu escutei o som de uma garganta lacerada como se eu estivesse diante da cena que se desenrolara lá dentro. Um último rugido de revolta e ódio também me aterrou o coração, mas era tarde para lamentar.
   Varuzal queimava. Os sinos começaram a soar demasiado tarde porque não haveria mais jeito de contornar a situação.

   Os fogos começaram de praticamente todos os cantos da vila. Os mortos que a mulher vampiro trouxera do túmulo profanado estavam em todas as ruas, quebrando portas e janelas para violar as casas e trazer os cidadãos para as ruas para que lá pudessem ser assassinados. A guarda da cidade fora pega de surpresa por uma imensa horda sem vida, que chegara silenciosa conforme sua senhora ordenara apenas com um único pensamento mal. Só então eu entendia porque a mulher vampiro me encarara durante tanto tempo sem dizer palavra ou fazer ação alguma: estava conferindo ordens para seus mortos escravos enquanto eu ficara tolamente na defensiva.

   Eu poderia ter evitado aquilo. Com meus pensamentos eu poderia ter invadido os dela, e com minha concentração eu poderia ter quebrado a dela. Seus mortos cairiam no chão, sem mentes, e ela estaria sem sua tropilha de amaldiçoados.

   Mas não. Varuzal queimava. Cada casa queimava porque eu não agira rápido. Cada pessoa sangrava a morte porque eu não pensara melhor. Faltara visão para um homem como eu, e essa era uma falta tão grave, julgou o destino, que o preço foi pago por toda uma vila.

   Aqui e ali mais chamas estouravam. Como isso era possível eu não soube tão cedo, pois as criaturas mortas tinham total aversão às chamas e delas escapavam com um resquício de instinto que trouxeram do túmulo. Soube, contudo, que era obra de mão humana mandada e pensante, pois as partes da vila que queimavam eram aquelas que não estavam sob ataque dos mortos. E eu poderia ter evitado aquilo.

   Os portões ardiam e ali havia um obstáculo para a fuga de qualquer um. Eu caminhara quase que sem saber até o portão sul, onde uma multidão considerável havia se encontrado apenas para deparar-se com a porta trancada e em chamas, tornando impossível sua fuga. Haviam trancado a casa mas o assassino já estava escondido dentro do quarto. E eu poderia ter evitado aquilo.

   Os mortos que foram ao seu encontro já os abatiam, incapazes de misericórdia. Estavam entre a lâmina velha e a chama devoradora, e muitos não sabiam escolher seu fim. Ninguém ali lutava pela sua vida, já haviam entregue as almas para o destino de morte. Eu poderia ter evitado aquilo.

   Mas eu não podia falhar com mais gente aquela noite. Não depois de meu erro fatal. Eles haviam perdido casa e sangue, não podiam perder tempo e futuro. E, se eu acredito de vez em quando em tal coisa, não podiam eles perder esperança.
   Com meu comando inenarrável e com o abrir de meus braços envoltos em pano negro, tendo a luz da lua refletida em minha face, os portões em chamas apagaram-se com um sopro frio das alturas em único segundo, e desabaram sobre o fosso seco como ponte de pedra inquebrável.
   Então, enquanto eles fugiam, eu exigi para mim a atenção de todos os filhos da tumba que ali estavam concentrados em matar, e todos desviaram para mim seus olhares vazios e sem cor. Investiram com a última vontade de sua senhora dominando suas mentes vazias.
   E desta vez eu não me fiz invisível para seus olhos ausentes. Eu encontrei cada um com minha lâmina: eu deixara a lança cravada no chão e tomara de minha espada, Altala, e com ela clivei a maré de maldição como se fosse o raio de sol matutino que corta a treva sem resistência escura. Quantos caíram por mim eu não sei narrar, pois dali a pouco todos os mortos que assaltavam a cidade deviam estar atacando a mim, chamados por algum encanto horrível que ainda perdurava em suas mentes violadas.

   Quando tombei de joelhos eu já quase não era mais senhor de minha carne: eu havia perdido meu corpo para o cansaço. Meus tendões ardiam e meus músculos eram tortura. Altala estava presa às minhas mãos, as runas engastadas no ferro brilhavam como brasa. Eu tentei olhar a lua, mas pilhas de cadáveres amaldiçoados barravam-me a visão. Eu havia caído da pilha de inimigos que eu mesmo formara.

   Minha lâmina enfeitiçada mantinha suas formas vis sobre a terra, então eu reuni meu resto de força e embainhei-a. De pronto aquela pilha desfez-se em fumaça horrível e troféus de guerra conforme os mortos perderam suas formas mundanas. Eram só lembrança perturbada novamente.

   Minha face encontrou o calçamento. Eu ouvi passos, mas era mais gente fugindo pela porta do sul, escancarada por mim. Não sabia o que era de Viatra, nem o que era de Elão, nem o que seria de Varuzal. Preocupava-me mais saber como estava meu pupilo Sarão, mas eu estava além da capacidade de conseguir procurá-lo.

   A única força naquele lugar, naquela hora, capaz de me acolher em face à vergonha e a exaustão foi a noite. Mas logo ela ia embora, dando lugar à manhã.

   Naquela rua, com a face colada no chão, depois de um tempo tão longo, eu reencontrei em mim aquela capacidade de salgar o mundo com a alma dos olhos.

   A manhã rompeu pelo céu. Vergonha. A luz do sol me encontrara em pranto.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

As Rosas e o Punhal, Crônica Dois, Parte V

Pergunta-se aqui e ali, com curiosidade impossível de se esconder, qual é a sina do homem. A resposta, esta eu aprendi ao longo de duros e amargos anos. A sina da gente é parelha ao tortuoso caminho do sofrimento. Somos todos nascidos de dores e sangue deitado, agourando o porvir de cada alma, que conhecerá dores e derramamento de sangue com a mesma certeza que a morte vem. Até que a morte venha, contudo, nos é dado o direito e o tempo para ganharmos glória, para reclamarmos tudo aquilo que é efêmero mas contenta nosso coração, aplacando por algum espaço mínimo de tempo os temores a que se entrega o coração infirme ou aplacando por algum espaço mínimo de tempo os pesares que se abatem sob a mente consciente e desperta. Eu tenho muito, seja o assunto conhecimento de mistérios e fatos da natureza, ou seja o assunto as posses estranhas às quais se apega o homem. Tudo isso tenho muito, e tenho também histórias e relatos das mesmas. Tudo isso porque muito vivi. Tudo isso porque, como todos, nasci de dor e sangue deitado. Porque, como muitos, vivi em meio à dor e ao sangue deitado. Mas porque, como poucos, tenho consciência destes caminhos tortuosos por onde escorre o sangue e por onde a dor caminha mais sôfrega, caminho que todos temos de percorrer até que a dor acabe e o sangue pare. Eu, sozinho tantas vezes nessa percepção, sei da sina do homem e entendo que ela é inescapável de maneira diferente que o simplório, que só a pode sentir sendo cruel. Prego, pois, a visão. Não para escapar do inescapável, mas sentir amenizar os fardos da sina do homem.
– Varyn, Meditações de um Mudador, vol.2



C
ontam os relatos no Livro Selmarino que Selmar, o Homem-Sol, deu sua vida para que a humanidade perdurasse. Sem seu sacrifício o mundo teria sido perdido em uma era de sombra e caos, no tempo em que o mundo era todo um único campo de batalha circundado por um mar de sangue. Mas dizem os crentes que Selmar abriu suas veias no topo do grande Monte Solarrim, no exato momento em que o sol tocava sua crista de pedra. O sangue do homem lavou as terras todas e incendiou-se sob a flama do sol, criando uma enchente que purificou a terra por fogo. Só assim foi possível recomeçar, só assim foi possível para a humanidade povoar uma terra nova. Creem eles que só os que sobreviveram ao dilúvio de fogo de Selmar é que eram dignos de viver, mas que por má arte sobreviveram também outros, o que explicaria todas as levas de gente de tantos reinos e terras diferentes que, tal como eu, não se deixam perturbar pela ladainha dos Selmarinos.

   Mas que a igreja de Selmar tinha muito poder, isso não é prudente negar se o que se almeja é a alcunha de sábio. Através da fé ilógica e do dogma visceral dominavam massas e massas, e essas massas submissas faziam-nos manipular a realeza. Poucas coroas reais têm a vontade de descartar a influência da igreja – seja pela mão de obra que pode recrutar quando desejar, seja pelos fundos de que dispõe, verdadeiros rios de riqueza, ou seja por sua influência prodigiosa através das nações.

   A presença de uma enviada da igreja Selmarina em Varuzal só podia indicar que coisas importantes estavam acontecendo ali. Importantes o suficiente para atrair o olho da igreja. E porque o carroção de Viatra trazia livros sagrados para o povo da igreja, algum acordo de grande importância devia ter sido feito.

   Não foi o que de fato eu vi se desenrolando quando espiei a cena que se abatia sobre o salão do palacete do prefeito de Varuzal, mas isto conto apenas depois de contar como fiz para infiltrar-me em tal local.
   Uma vez que por mim tombaram os misérrimos desalmados que foram atiçados contra mim, vasculhei a área em busca de mais defuntos ambulantes. Nada. Mas aquilo já explicava um pouco dos animais mortos nos arredores da vila: aquelas criaturas nefandas são mantidas vivas por meio do sangue de animais de casco, e isso, somado ao relato que eu obtivera sobre a longa medida de tempo durante a qual várias criações sumiram das casas dos camponeses, permitiu-me concluir que havia uma força de mortos lutadores estocada ali naquela vila. A presença daquelas criaturas sórdidas na terra enchia de temor inexplicável o coração das pessoas, fazia murchar as plantações e deixava o gado louco.
   Quanto a mim, essa presença horrenda trazia inquietação, pois aquelas terras mantinham-se pacíficas apesar da proximidade com as terras da guerra. Por ali passavam tantos refugiados. Teriam estes de ir para ainda mais longe?

   Fui atrás da fonte de tanta sordidez. A raiz desta árvore morta e enegrecida estava dentro do palacete. Passar por uma porta vigiada por seis guardas era um desafio, contudo, que me estimulou demais a imaginação e não me causou nenhum nervoso.
   Mas este era, ainda assim, um desafio. Tomei-o com muita alegria.

   Eu poderia ter me disfarçado aos olhos daquela gente. Passar pelo que eu quisesse. A soldadesca costuma perder o olho bom para o embuste quando é posta plantada na frente da porta e aprende apenas o nome de quem deve saudar. Mas eu não quis me valer da ignorância alheia para atestar alguma perícia. Poderia eu ter passado invisível por entre eles, e pensariam que fora apenas capricho do vento o abrir das grandes portas. Era provável, contudo, que pensassem nesse caso que fosse obra de mau encanto, estando a vila tomada pelo pavor suspeito. Poderia me anunciar, mas ao fazê-lo chamariam seu senhor, que naquela momento poderia estar sendo orientado por Viatra, que sendo da igreja desprezaria a boa vinda dada a um feiticeiro.
   Decidi, sendo bom amigo de alguma lógica, usar outra porta. Outra entrada, melhor dizendo. Uma em que não houvesse porta.

   Fiz-me de amigo confiado das sombras e estas, densas, ludibriadas pela Arte e pelo meu agrado dissimulado, cercaram-me como amantes queridas, como aduladores baratos, como roupas de honraria. Abraçavam-me braços sem luz, odiosos mas sutis, pavorosos em sua frieza e escuridão, mas belos pela simplicidade e ausência da pretensão. Fiz-me, então, denso como a sombra de um fantasma, e deslizei pela área plana e aberta entre mim e o palacete como deslizam os sonhos, as alegrias e as dores diante dos olhos humanos.
   Ao encontrar a parede, esse obstáculo ferrenho de pedra e vontade de longo termo, atravessei-a sem me importar com a intrusão. A sombra guiou-me de um lado da sombra do muro para o outro lado da sombra do prédio, e lá dentro estava eu, nas sombras conjuradas pelos archotes e lâmpadas de óleo.

   O ambiente cheirava a decadência.

   Silencioso o suficiente para pegar desprevenidos os pássaros e para causar inveja a um gato negro, andei pelos corredores como se estivesse em casa de convivas apreciados. Sem esforço deduzi, pela lógica da arquitetura local, conhecida por mim, onde ficava o porão. Fui até lá, e aquela vasta sala cortada por mais paredes tinha adegas e uma dispensa farta, depósitos de material da criadagem e quinquilharias que foram melhor estocadas longe da vista dos que acima faziam boa morada. Meus sentidos de mudador me levaram até a pedra fundamental do casarão, ela estava enterrada sob algumas pedras de piso mas me bastaria estar perto dela mesmo assim.

   Sobre as pedras que encimavam a fundamental, aquela que fora a primeira do palacete, joguei minhas runas engastadas em âmbar e desenhei com a ponta da faca meus glifos de pergunta. A vidência me revelou os segredos todos daquela construção, e dali saí andando pelo palacete como se estivesse em casa minha de tão familiar que se tornaram para mim os corredores e cômodos. Eu talvez soubesse da planta do palacete melhor que aquele que o construiu – e tendo eu mais visão e ousadia que o arquiteto comum, é provável que de fato eu melhor conhecesse, porque a razão aguçada traz mais uso a uma simples janela ou porta do que a mente unifocada daquele que as desenhou e dispôs.

   Porque ao invés de passar pelas portas mais usadas para chegar ao salão principal, fiz meu caminho pelo alto da construção, nas traves do teto. Por ali caminhei com peso reduzido, pois assim o quis, e não fiz ranger a madeira velha. Foi assim que eu pude contemplar a triste cena que mostrava o que era e o que estava para ser de Varuzal.

   Havia um fogo aceso no centro do salão, e ali assavam talhes generosos de carne. Ao redor três mesas foram postas, formando uma sorte de triângulo. Os comensais eram todos gente alta e sinistra, envolta em trapos negros ou marrons, uns vestiam o couro cru e mal curtido, ainda cheirando a sangue, que retiraram de bovinos com as próprias mãos.
   Viatra estava ao fundo, amarrada na altura do pescoço, da cintura e das pernas, com as mãos atadas. Estava estática e muda. Prenderam-na a um dos pilares do salão. Seus guardas não foram poupados, jaziam pendurados em outros pilares, de cabeça para baixo e sem elmos, tendo congeladas nas faces as expressões de uma morte à traição.

   Observei que reinava a maleficência. Abaixo de mim festejavam homens vis de má índole, que se cortavam com suas facas longas apenas pelo prazer da dor e do sangue. Isso para dali a pouco, ainda em meio a risos, talharem a carne mal cozida e comerem-na vorazmente, cuspindo pedaços aqui e ali. Eram homens, a maioria, e faziam daquela casa de governo um prostíbulo forçado ao terem para sua luxúria moças sequestradas dos campos. Não eram meretrizes de gente torpe, eram gente marcada pela lida: mãos calejadas e traços firmes, o cabelo seco pelo sol. Estavam sendo prostitutas forçadas, talvez sob encantos maus de quem sabe algo da Arte e provavelmente por resultado de ameaças tão ruins que só se indica através delas a procedência fatal – o coração do homem.

   A orgia tomava forma enquanto os homens brandiam facas cheias de sangue de amigos, de moças capturadas e de carne de porco e vitela. A cabeça de um suíno, percebi, fora arremessada ensanguentada por sobre uma das mesas, deixando o rastro de sangue para estalar-se aos pés de Viatra, que sob sua venda parecia cega e surda ao que acontecia ali.
   Enquanto uns se cortavam e outros se regalavam com diferentes carnes, vi que sobre todos reinava um espectro mais medonho: uma mulher estava sentada em uma cadeira de alto espaldar, mais alto que os das outras, e ela tinha nas mãos uma taça imensa e vazia, além de um punhal. Ela estava nua, sentada sobre a cabeça de um touro negro, entre os chifres do animal. Bateu a arma na taça e com esse comando dois homens à mesa foram buscar o prefeito.

   Sim, ele estava lá. Se estava ciente do horror, não soube dizer. Quando o trouxeram de seu quarto, mostraram para mim, sem saber, um homem debilitado e desprovido de forças. Sôfrego, ele levou sua palidez até os pés da mulher nua que tinha nas mãos a taça. Jogaram-no, na verdade, e o que ele de imediato fez não foi procurar revolta ou explicação: foi virar-se para cima adorador e estender um braço para sua amada.

   Espero eu que quem me lê seja intuitivo e sagaz o suficiente para deduzir o que aconteceu. Em respeito a este que pensa ligeiro e a esta que sabe que só se é sábio ao usar a sabedoria, dispenso minuciar o triste ocorrido. Após a mulher abrir mais um furo no pulso do prefeito ele, com o que bem poderia ser um último fôlego, declarou a ela seu amor profundo. Enquanto ele balbuciava no limiar das forças de seu peito, ela apenas encheu a taça.

   De longe vi ali naquele rosto pervertido uma sombra terrível. Duas, na verdade. No lugar do clarão de olhos vivos e tenazes de mulher que impera eu vi dois rombos hediondos por onde vazara toda a humanidade. Aquela sombra era familiar: Elão de Varraquêz não fora o único daquela estirpe maldita que eu vira em tão pouco tempo. Lá estava eu diante de um vampiro.

   A criatura nefanda bebeu da taça com avidez, e o que não coube em sua boca já cheia e na garganta já inflamada, deixou cair livre pela face, ensanguentando a seguir o busto e o colo. O sangue do prefeito parou ao pingar do focinho do touro decapitado.

   Foi demais para mim. Eu não suporto esse tipo de decadência. Não havia ali valores, não havia ali decência. Embora eu abnegue os valores do tolo e ria da decência dos medrosos, eu digo que nada é da vida longa do homem sem que ele direcione sua capacidade de pensar para o bem de seu semelhante sempre que possível. Má é a pessoa que tripudia na desgraça alheia. Uma coisa é matar o animal que vai para a mesa, ou dar misericórdia ao moribundo, e é compreensível dar cabo do inimigo que não perdoa ou se detém, e aceitável torna-se a morte de um monstro cruel que ameaça com sua existência. Eis aí de onde derivam os valores que defendo: da verdade. Da constatação, da observação, da compreensão da brutalidade das coisas. Não de dogmas iníquos e de verdades impostas, mas daquela verdade que segue o que é amante da observação e amigo do pensar cuidadoso.
   Desse modo estava eu diante de tamanha depravação que não pude me abster. Se eu tivesse tido menos paciência, teria feito daquele palacete fogueira que queimaria pela noite e seria vista por toda a cidade.

   Com desprazer de ter de fazer o que devia ser feito, pulei do alto do teto e caí sobre o fogo aceso. Já com as palavras certas para conjurar a amizade das chamas, fiz com que a fogueira se excedesse em sua forma e agarrasse com garras de incêndio aquela gente grotesca e animal, pois animal pleno é aquele que abandona sua sabedoria para saciar seus instintos mais básicos. Como assim dispensavam sua sabedoria e razão, queimei-lhes as cabeças, e o cérebro queimado fez incendiar ideias torpes e maus encantos que reinavam sobre aquela terra.
   Mas como eram rudes e frios os seus corações, incapazes de se regozijarem na piedade que se tem da gente trabalhadora e incapazes de se contentarem com a admiração que não destrói ou profana, queimei-lhes também o peito, abrasando aquela frieza horrível. Corações queimados deixaram em brasas e cinzas cálidas as emoções mais vis que pulsam na carne humana.
   E como usavam de seu sopro e sangue apenas para ferir e macular, queimei-lhes sem cerimônia as mãos e os braços, e cada dedo virou uma chama desconhecida para a palma, castiçal. O calor daquelas feridas fez tórridos tantos atos passados de tortura, sortilégio e assassínio que a fumaça que se desprendeu conforme murchavam tantas mãos de gente ruim foi incapaz de ganhar a altura e encarar a noite lá fora, de modo que caiu sobre o chão em mantos negros e sinistros.

   E enquanto os berros retumbavam, senti tantas mentes que escaparam da chama se armando contra a surpresa e contra mim. Tomaram de facas e facões, e em várias línguas armou-se o mau encanto.
   Ai daquele que contra mim desperta a sanha de colocar o feitiço. Torna-se fúria toda a minha paciência e faz-se em ódio minha complacência quando usam contra mim a Arte. Aquela gente baixa falou coisas para murchar meu coração dentro peito, e para que ele parasse, e tentaram roubar meu fôlego, deixando-me oco de ar, e tentaram roubar a fluidez de meus tendões e carne para que eu tombasse seco. Tentaram, os mais audazes, expulsar minha alma de meu corpo para que morto eu caísse de pronto, ou ordenaram que me agarrassem pelo pescoço sombras infernais e que me arrastassem para terras longínquas onde existir dói.

   Mas minha pele é grossa porque sobre ela correu a água de chuvas estrangeiras. Meu pelo agrisalhou sob estrelas desconhecidas para eles. O pó de estradas já esquecidas cobriu-me os poros, e luzes de casas tão distantes me iluminaram também. Toque de gente estranha alcançou-me os nervos em lugar longe dali, e a minha aura cresceu com as canções de pássaros e de mulheres que habitam além das fronteiras percorridas com afinco.
   Não, nada daquele rol de maus desejos ganhou entrada e morada no meu ser. Eu andara demais por muito chão e vivera demais por muita vida para me deixar cair por fim assim, nas mãos de gente baixa e egoísta. Mais uma vez eu estava cercado por nada além da morte, que em sua nudez me estendia a mão. Aquele era novamente um dia de morte, um dia de superação. Mas eu sou senhor de meu destino por razões que em demasia me repito a elencar, de modo que eu faria claro que a morte não viera por mim, e que não seriam aqueles iludidos que me superariam.

   É certo que Varyn é homem, e homem morre. Algum dia morrerei. E nesse dia tal coisa acontecerá porque alguém há de me superar. Mas aquele dia não é tal dia, e esse alguém não estava ali entre aquela gente.
   Eu vivi porque nada me dobrou a vontade. Fiquei incólume diante daquela vileza baixa e ignorante. Aquela falsa, pretensa sabedoria era mesquinha demais para entender a Arte como eu sou capaz. E a Arte, ultrajada, obedeceu meus comandos para livrar mais uma terra de gente que faz mal uso dos dons da mente e da obstinação: eu chamei os nomes de ventos ancestrais da respiração humana e na minha mão que não portava a lança eu agarrei as correias de relâmpagos e uma trança dos céus. Abri os dedos e por entre eles eu vi escorrer a luz das nuvens mais negras, e calei os gritos com o estampido do trovão. O raio solitário estalou pelo salão, conquistando carne e voz como conquista a luz mais humilde a vasta habitação da sombra.

   E quando tudo enfim quedou silencioso, e quando as camponesas pisaram fugidas as pilhas de cinza de má gente, eu estava em um salão quase deserto. Restaram ali, para o diálogo sem paz, um vampiro depravado e cruel vindo do norte, Viatra, ainda aprisionada, mas em pensamentos plenamente atenta a mim, e eu, que estava de pé no centro do salão, cercado por um notável anel de cinzas, onde se misturavam as cinzas da fogueira inocente que se apagara, as cinzas das maledicências das quais eu me recusara a ser vítima e as cinzas de meus inimigos.

   A mulher, nua e pavorosa em sua crueldade, encarava-me com maldade e fúria. Seus olhos desalmados eram presas geladas procurando meu coração.

   A primeira palavra ali desferida, contudo, não foi de nenhum dos três.