sábado, 15 de dezembro de 2012

Quebramarra

Minha boca - saturada, não suturada.
Minha pele - abandonada, não abonada.
Meus olhares - inconsoláveis, não incontáveis.
Meus sonhos - pesados, não pensados.
-- Frontispício do Templo, Cologne

O cão revoltado descobre-se encoleirado. O barco, ultrajado, percebe suas amarras. A vinha, envergonhada, dá-se conta do cordame. O pássaro, sem reação, desvenda a verticalidade da gaiola. Passamos a vida sujeitando ou sendo sujeitados. Somos todos sujeitos. Alguns predicam (a forma mais simples de falar que prejudicam), mas outros são apenas isso, sujeitos.
O tolo.
O escravo.
O enganado.
O leviano.

Mas há sujeitos que precisam de um predicado - de uma forma de prejudicar.
O mentiroso.
O falso.
O traidor.
O cínico.

E colocam-se, tantas vezes, nessa gramática inócua da vida em uma voz passiva, fantasiando-se, pela metáfora desavisada, quase que nunca como sujeitos.
O tolo foi enganado.
O escravo foi passado para trás.
O enganado foi traído.
O leviano foi ignorado.

E que dizer daqueles sujeitos que descobrem seu lugar sintático nas frases da vida? Daqueles que percebem os nós gramáticos atando-os a algum lugar, o peso da semântica ancorando-os em uma cena única nesse auto complicado?

Deixam de ser sujeitos. Deixam de ser gramáticos. Tornam-se indivíduos. E, sem a gramática delimitando seus passos e seus dorsos, ou pesando em suas frontes e dobrando duas cabeças, descobrem-se livres. Senhores. Gaúchos. Senhores Reitores. Alienistas. Morenos. Ateneus. Casmurros.

Enfim, libertando-se. Nunca livres.
Sempre em libertação.

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