domingo, 2 de dezembro de 2012

Intimismos

Rosas tristes são piores que cabeças de defunto, assim espalhadas pelo chão. Não dormem – estão chorando acordadas, crescendo para apodrecer – pelo chão.

1
Dizem de solidão e fracasso – xipófagos. Um atado ao outro em elos de carne. Quando eu acordo pela manhã, se me sinto só, engano-me: está comigo a solidão, fazendo-me companhia, e conosco mais um, que me condena a essa companhia solitária.
Não fui vencido. Deus, não fui! Só se é derrotado quando há luta, e eis que nem luta houve. Houve apenas duas coisas – fracasso, e solidão.


2
Nada acaba. Tudo morre. Morrem as pessoas, as coisas, os sentimentos, as memórias, as impressões, os significados, as leituras, os pensamentos. Morte, morte, morte, morte, mortes. A todo tempo algo está morrendo, alguma vida fracassando, alguma existência falhando. Algo morrendo pela última vez. O espírito enlutado é aquele coitado que vive na verdade, incapaz de se desvencilhar da crueza de um mundo de morte, fracassado no esforço de fugir para um mundo de alheamento, desvencilhado desse sopro, dessa ideia, desse constante despertar para acabar, de morte.


3
Dizem que ideias, uma vez mortas, estão mortas para sempre. Sentimentos esquecidos, impressões perdidas, algumas deidades obscuras, textos a lápis. É a praga da sanidade, é o fardo da memória, é a tristeza da consciência: querem nos fazer lembrar de tudo, pensar sempre, e no que pensar, quando tudo morre e do que lembramos, até morrer, é que morreu aquilo que fomos, que sentimos, que pensamos. Não há tristeza nem felicidade no existir pelo existir – não há nada, e se é essencialmente o que se parece. Deixa-se de ser, pois não há “ser”, não há “eu”. Nada há.


4
Quando um sofre, sofre essencialmente só, pois é só sua a dor que sente. Dois ou mais podem beber da mesma dor, diminuir no mesmo ocaso, mas a dor é um privilégio da individualidade. Milhões passam fome, e o desempregado não para de chorar. O homem enviuvou-se, e a menina sem o cinema não deixa de estar triste. Há dores e dores, há pessoas e pessoas, há peitos e peitos. Cada chave abre um trinco por vez, cada dor retorce um mediastino diferente, cada perda lastima um choro sem par.


5
Pode haver amor de um? Paz de um lado só? Amizade de um único representante? Ou há sentimentos e impressões que só existem em conjunto?
Pergunto-me: para que?
Erro do sujeito? Ilusão do iludido? Cegueira do indivíduo?
Quão rápido damo-nos conta da ilusão, vemo-la real; e tão devagar é o fim, a morte, a partida. Zarpa o barco sem demora, célere sob o vento auspicioso e a maré alta, tantos crendo na ilusão do desembarque, que só existe em sonhos, e na chegada vindoura, que na partida e na viagem não existe. E como é devagar o naufrágio, lento o soçobrar, difícil baixar tão dentro do mar – e a razão, iludida, nos faz crer quando dizem ser rápido, ou pouco.


6
Há desalentos, mas para alguns há alento. Há dores, mas para algumas há cura. Há sonhos, mas eles não têm nada. A realidade em nada condiz com um sonho – o sonho é integrante da realidade – se é sonhado, é real – e não a antítese do que os sentidos do corpo podem sugerir.
Acontece, no entanto, que os sonhos são mais bem sonhados sem expectativas. Muito rápido a esperança passa de bálsamo a veneno, de armadura a ilusão; de alento há desalento.


7
Pode a morte ser um despertar se a vida é um sono do espírito? O homem crê, sonha, espera, se ilude, suscita. E isso tudo normalmente ele faz só. O homem ama, chora, ri, caminha e morre. E isso, vez ou outra, ele pode fazer acompanhado.

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