quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Música no teu Corpo

O whisky era barato, mas fez sua parte. O vinho é bebida de mulher, disse o irlandês, mas ajudou. Acabei lembrando, consegui fazer-me ouvir música que se fez no teu corpo.

Senti-me bem. Por um momento eu fui um bardo, um músico, e de um instrumento único em seu tipo, tirei notas jamais ouvidas. Nem ecoaram longe, eram quatro paredes abafadas, mas a música persistiu. Ganhou vida, como uma estátua de barro fraca que recebe um sopro, e em um lapso de tempo dos mais incertos vinga e desaparece sem sumir – ecoa no ouvido e se implanta na memória.

Afundei os dedos em teus cabelos. Era dedilhar uma harpa, e mesmo que os sons ainda não estivessem afinados, quem poderia ouvir melodia mais clara, mais limpa, mais única? Meus toques percorriam teu corpo, a orquestra a dois ganhava força, ganhava ritmo, os movimentos evoluíam. Quase não havia allegro. Presto, só no pensamento afoito. Mas apesar de ser uma Ária breve, essa música do teu corpo, foi um Largo, um movimento lento que atiçava o pensamento e as notas, superexcitando-as de modo que cada tom, cada toque parecia mais uma música inteira, que em sua perfeição já cedia lugar à próxima, que vinha no resfôlego e no suspiro.

Balançava a pele. Os lábios tremiam. O desejo fremente que inspirava a música se realizava, pois era composta a obra do compositor, ganhava som e vida alheia a ideia pura que tão fugazmente criara raízes no pensamento, e já era agraciada com a forma, com essa música que teu corpo produzia, conduzido.

Allegro. Presto. Largo. Ária. Sim, a princípio era assim a música do teu corpo, uma música clássica, pois de um espírito clássico vem a música erudita (embora ela mesma não se considere assim). Mas me pergunto se é só a nota clássica e orquestral que evoluía dos movimentos de corda do seu corpo, dos movimentos de onda, das realizações do sopro. Talvez fosse mais que música clássica, pois teu corpo dançava despido ao som daquela música ali produzida, ali criada. O que houve naquele momento que pertencia à guitarra do blues? O que consegui daquele dia da batida franca do pop? O que terei experienciado da paz da new age? E se houve também MPB, na vocalização suave que juro ter escutado? E olha, pode bem ter tido um acorde ou dois de música colonial...

Meus Deuses... Que música. E lembro também como houve rock. Amo rock. Clássico, metal, melódico. E cada nota que naquele dia seu corpo em afinamento produziu, conseguia escutar um pouco do que mais amo. Do que mais amava. E, coroando a tudo isso, eu escutava você. Seu sopro, a cadência do seu coração – o tímpano no fundo da orquestra ou a batera moendo quando os sentidos, de tão excitados, encontram a paz?

Não há como expressar você em palavras, pois as palavras mudam demais. Os juízos escritos mudam demais. Falseiam-se. Simulam verdade quando são falsos desde um começo não rabiscado. Você teria de ser as melhores palavras unidas em uma sequência, que nem lógica deveria ser. Mas talvez haja como expressar você em música, e seria com as melhores notas.

Mas o instrumento se foi. A última corda partiu-se em meu pensamento. Tudo o que resta é a música.

Que ecoa.

Meu Deus, ecoa.


Ulian, 12/12/2012

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