sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As Muitas Faces do Eu

Eu sou o que sou.
O que sou é mistério.
Eu sou o que sou,
Não quero saber o que.

Sei o que não sou por enquanto,
E o que quero ser não importa.

Sei o que fui mas ignoro,
Serei mais do que já fui um dia,
tudo de uma vez só.

Eu rio quando estou alegre,
Eu choro quando estrou triste,
Eu arranco os meus cabelos e
Eu ranjo os dentes quando odeio.

Eu me queimo quando estou amando.
Eu não sou brasa, sou o salto mais
alto da mais quente chama do Inferno
E eu sou a mais santa das flamas do Paraíso.

Eu queimo, eu queimo, mas não viro cinzas.
Eu derreto. Eu sou ouro, e me misturo na terra,
Eu viro uma liga com a terra, eu fico puro.

Então me curvo. Ou então eu me ergo.
Então eu canto e exalto, ou
Então eu me esquivo e amaldiçoo.

Eu me espicho e alcanço ou então
Eu me contraio e desdenho.
Eu esnobo e cuspo em cima ou então
Eu me detenho e acaricio.

Então eu sinto. Então eu vivo. Então eu sou.
Eu rio, eu chora, eu gargalha, eu grita, eu sofre.

Eu sou.

Sou muito mais.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Momento Difícil

Atalanta é uma pequena cidade com menos de 4 mil habitantes em Santa Catarina. Seus habitantes são, em maioria, decendentes de colonos, e há três grandes potências na cidade: um par de postos de gasolina da mesma rede, uma beneficiadora de fumo e uma madeireira.

Havia uma família na pequena cidade composta apenas por pai e dois filhos. A mãe deixou-os quando a filha mais velha tinha 10 anos. O pai, cujo nome não lembro ao certo, tocou a família desde então.
Essa semana, quatro anos depois da mãe abandonar o lar, o pai da pequena grande família sofreu um acidente de trabalho na madeireira: uma carga de toras caiu em cima dele. Como ele era doador, não demorou para que chamassem os parentes e passassem o laudo da morte cerebral.

Camila e Alan, não conheço vocês. Não sei se seus nomes são com C e não com K, ou se são com um ou dois Ls, mas rezarei pelos dois. Não sei o que mais posso fazer, mas tentarei descobrir. Também rezarei pelos seus avós e madrinha que cuidarão de vocês. Espero que agora, mais do que nunca, sejam irmãos, e espero que não passem um momento do dia sequer sem apoio para uma hora tão difícil. Não sei como expressar minha tristeza de outra forma, espero poder expressar minha ajuda de outras.

Essa semana uma conhecida perdeu a mãe. Não vou me perguntar se isso é justo ou qual o sentido disso, porque da morte eu sei pouco e serei presunçoso se tentar falar de um sentimento que não senti.

Camila, Alan, pode ser que vocês jamais leiam este texto. Mas se crescerem juntos, saudáveis de corpo e mente, fortes e encontrarem a felicidade nas pequenas coisas de todo santo dia, ficarei muito mais agradecido. Amo vocês dois, mesmo sem nunca ter visto vocês ou sem nunca ter falado com vocês ou ouvido falar de vocês antes.

Como sabemos, nessa hora todo consolo é vão e todo apoio é pouco. Enquanto está escuro, vamos esperar o Sol nascer de novo.

domingo, 20 de setembro de 2009

Um conto budista

Diz a lenda que sobre aquela ponte, em um dia de primavera, passavam um monge idoso e seus discípulos jovens. Enquanto o mestre contemplava as águas rasas e de correnteza forte, percebeu um pequeno escorpião tentando inutilmente manter-se fora da água agarrando-se às pedras.
O mestre, compadecido da pequena criatura, correu até a margem do rio e entrou na água e conseguiu tirar o escorpião de lá. Mas no caminho para a margem, o escorpião, assutado, picou o dedo do mestre, que por instinto e resposta à dor acabou largando o escorpião no rio.

Sem pensar duas vezes, o venerável correu até a margem e apanhou um graveto, voltou para o rio e, com esforço, conseguiu fazer o escorpião subir no graveto e assim tirou-o da água e levou-o em segurança até a margem seca.
Assim que voltou para junto de seus discípulos, que a tudo viram, um dos jovens perguntou:
"Mestre, não entendemos. Por que se esforçou tanto para salvar um animal que picou a única mão que o ajudou?"

O mestre, sorrindo enquanto retomava a marcha, disse para os jovens:
"O escorpião agiu de acordo com a natureza dele. Eu agi de acordo com a minha."

domingo, 13 de setembro de 2009

A Foice dos Deuses

Acho que as pessoas constroem pirâmides enquanto vivem. Elas colocam algo no topo e todo o resto serve de base. Há quem coloque seus princípios, os princípios de outros, o trabalho, a família, o amor, o dinheiro, o sexo, o poder, a tristeza, a loucura, as aparências... O que você coloca acima de tudo? Seu amor por um ser superior? Suas contas atrasadas? Seu sábado à noite?

Hoje há tantas coisas que nos diminuem... Somos números nas estatísticas, cálculos de setor no mercado, consumidores pro comércio, fiéis para a igreja, eleitores (otários) para os políticos, enfim, somos muito pouco para os outros. Hoje temos mania de reduzir as pessoas, torná-las mais simples para que caibam em planos e cálculos e tabelas.

Não sou tão fã do Nietzche, mas amargamente reconheço que ele está certo quando diz que a sociedade degenera o homem. Há espaço para os fracos crescerem e para os fortes diminuírem, mas ao invés de haver igualdade e condições para todos, como em um grupo natural, nós pervertemos as leis naturais e as levamos aos extremos: Há o lobo alfa e o lobo ômega de um bando, enquanto na sociedade humana há os líderes mundiais e os párias. Nenhum ômega sofre tanto em um bando quanto um marginal ou miserável na nossa sociedade gloriosa. Nenhuma crueldade é suportada entre os lobos da mesma maneira que um homem é capaz de infligir a outro. "O homem é o lobo do homem", como disse Plauto.

Nenhum animal é tão perigoso para outro animal quanto um homem é para o outro. Nenhum caçador é tão cruel com sua presa e nenhuma predação ou competição são tão torpes. E ainda assim aceitamos viver nessas condições como se não houvesse forma de mudar.
Não sou niilista, mas também não sou sonhador o suficiente para acreditar que uma idéia aqui e acolá pode fazer a diferença e mudar toda uma sociedade. Isso tudo já se tornou maior que nós, nos perdemos em um labirinto que construímos e volta-e-meia reformamos.
Por isso acredito que o "cada um no seu quadrado" tem um lado positivo. Melhor cuidar da pirâmide do que do labirinto.

"Melhor viver um dia como o tigre do que cem anos como o cordeiro.", já diz o Bushido.

sábado, 5 de setembro de 2009

::: B de Brígida

O amor vence tudo, dizem os brasileiros, porque Amor omnia vincit, diziam os romanos.

::: B de Brigid

Brígida, Brigid, Brígite, enfim, A Exaltada.
Os celtas antigos não costumavam ligar os deuses a aspectos naturais/sociais especiais.
Enquanto, por exemplo, os gregos e os romanos tinham deuses para o céu, para a chuva, para o fogo, para a guerra, etc., os deuses célticos não regiam especificamente algum elemento natural amplo. A maioria estava ligada à terra em que era venerado, havia deuses para cada rio, para cada bosque; mas algumas dessas deidades tornaram-se pan-célticas, sendo veneradas por praticamente todas as numerosas tribos celtas da Idade Antiga, e apadrinhando terras inteiras, clãs numerosos ou ofícios importantes.

É o caso de Brigid, a filha de Dagda, o Bom, com uma poetisa. Ela tinha duas irmãs, também chamadas de Brigid, e as três são veneradas como aspectos únicos de uma mesma deidade.
Brigid, dama da chama eterna, é a protetora dos artesãos, sobretudo os ferreiros. Ela é a anciã, a mais velha, aquela que tempera o aço, aquela que alimenta a forja.
Brigid, a inspiradora, é a protetora dos bardos e poetas. Ela também está ligada à divina chama, pois seu fogo é a faísca que incendeia as mentes dos poetas.
Brigid, a curandeira, é aquela que fornece aconchego e asilo. Seu fogo é a fogueira do fim do inverno, ao redor dela reunem-se aqueles que esperam o fim do inverno e presenteiam-se com tempo para sonhar com a primavera.

Brigid, a Deusa da Chama Tríplice, é honrada pelo festival de Imbolc, ou Imolc, hoje um dos Sabbats dos Wicca e alguns outros grupos neo-pagãos. No Imbolc do hemisfério norte as noites vão ficando menos longas e chega a hora de planejar o que será feito durante a primavera. Os fantasmas da fome e do frio ainda não partiram, mas o sol já volta a brilhar mais tempo.

Brigid era tão famosa no mundo celta que tornou-se conhecida em diversas tribos. Os romanos associaram-na à Minerva, que por sua vez havia sido associada a Palas Atena, a deusa grega da sabedoria e da estratégia. E, mais do que isso, Brigid foi tão estimada pela humanidade que ela resistiu a uma mudança radical: Ela é, para muitos, Santa Brígida de Kildare, uma das Santas Padroeiras da Irlanda. Foi uma das tantas figuras pagãs que encontraram culto na emergência do Cristianismo.

Brigid é a abundância que vêm após a provação. É sonhar com a colheita enquanto ainda é inverno, é ver pronta a ferramenta enquanto o aço ainda está quente e disforme, é ouvir a música pronta enquanto ainda se acertam as primeiras notas. Parecemos estar esquecendo disso, nessa sociedade hedonista que nutrimos hoje. Usamos propagandas e subterfúgios para esquecer o inverno e não encarar as noites mais longas, enquanto queremos sempre ter ao alcance das mãos o que nos traz aconchego.

O segredo para se conseguir um bom texto (entre os outros mil!) é cortar o que ficou ruim, trocar partes inteiras de lugar, descartar o que é bom mas não se encaixa. Nem todo pedaço de ferro aguenta o peso do martelo ou a dureza da bigorna e acaba virando refugo. E, logicamente, a cura só existe por causa da doença.
Ouvimos falar dos nossos amados políticos roubando milhões, mas e nós? Nós, que votamos (deveríamos votas) neles, somos diferentes nesse ponto? Podemos não roubar rios de dinheiro, mas podemos dizer que em momento algum estamos esperando uma recompensa sem termos nos esforçado de verdade? Quantas vezes esperamos um milagre ao invés de agir? Deus não faz o que você tem que fazer, como li uma vez.

Os antigos pagãos sonhavam com as promessas de Brigid enquanto ainda estavam cercados pelo frio do inverno. A única garantia que tinham era o calor da fogueira e o brilho cada vez mais presente do sol. Ainda assim, sonhavam.
Talvez já estejamos escravos de nossos sonhos: esperando uma mudança que fará tudo melhor porque não mais nos acreditamos capazes de lutar por nossa própria conta.

Por Brigid, que eu não seja assim. Que eu não seja o verso cortado, que eu não seja o refugo da forja, que eu não seja a doença sem cura. Que o fogo da Exaltada nos ilumine e aqueça, mas que sejamos todos dignos de sua proteção e compaixão. Filha do Bem e da Arte, ela nos abençoa. Que seu amor cure nossos olhos, pois temo que chegará o dia em que enfim perceberemos que já faz tempo que não temos mais olhos para enxergar.

domingo, 30 de agosto de 2009

Entre Tu e Você

AINDA em processo de lapidação, como diria o bom Bilac


Entre Tu e Voce

Doce flor de meu Érebo frio,
Há de te abrires sob outra luz?
Não te mostro douraro brio,
Mas pelo verde ouro tu te seduz?

Hah! Quem sou eu para julgar-te?
Creio que o primeiro pecado foi meu.
Teu rosto gritou-me em disparate:
"De beber do meu néctar esqueceu?"

Não esqueci, fragrante flor,
só não fui abelha saqueadora;
Mas caso bem pensar-me for,
dispensa: fui cigarra zombadora.

Abandonei você aos ventos
Enquanto eu desfiava roca
Lê o que para ti escrevi na língua secreta que inventamos:
"There should be no reasons, never. And yet, there are many. Shall them all fall silent? No! William Blake told me it can be loud as the loudest cry!"

Meu escárnio tem meu sabor.
Ele é o espelho do teu sorriso.
Deixa-me frio esse teu calor
E Minha loucura te faz juízo.

Assim, lê nessas linhas amor não,
Enxergue só despeito, desamparo,
Que se amanhã vocês lamentarão,
Perco dourado brio que me é caro.
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foi-se a métrica, ficou a preguiça... Desculpe, Bilac!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

::: É inevitável. Uma Série

QUANTAS coisas são inevitáveis ao longo de um dia?
Inevitáveis de seu ouvir, inevitáves de se ver, inevitáveis de se pensar, às vezes inevitáveis de se dizer...

Hoje, em um dos sete ônibus de todo dia, vinha quieto no meu canto após sair do trabalho. Na minha frente estava sentado um estudante de curso técnico, e ele por sua vez estava de frente para dois estudantes de ensino médio, creio eu. Sei que uma hora eu captei o assunto do mais velho:
"...bichice! Eu na quinta série já tinha ficado com uma guria da sexta. Na sexta série eu fiquei com uma do terceiro ano!"

Parte inevitável:
Contive minha língua, mas não pude sufocar no pensamento o "P...ut@ m³rd@!!!". E coloquei a cabeça entre as mãos pra não deixá-la mover-se violentamente em gesto de negação à realidade.

Inevitável.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

::: Enquanto isso

Sem erratas por enquanto.
Comentando algo que me aconteceu hoje:
Trabalho para a Secretaria da Fazenda de Joinville realizando um trabalho a campo. É inevitável, na cabeça de algumas pessoas, que elas façam a associação entre minha figura e o governo do atual prefeito. Uma cidadã me parou na rua e já foi disparando: "Isso é coisa do prefeito né? Aproveita bastante meu filho, mame bastante na prefeitura." E enquanto se afastava, acrescentou "Eu concordo com voces! Aproveite!" e com aquele risinho satânico da trapaça, se afastou.

Como mudar o Brasil se o Brasil não muda?

sábado, 22 de agosto de 2009

A fatídica "Mist Leben"


Mist (do alemão) traduzido para o inglês = Crap! Leben (Idem) traduzido para o português = Vida
::: Vida de Crap! :::

HÁ relatos e indícios históricos da Vida de Merda ao longo da história humana. Alguns historiadores acreditam que ela começou quando o Homo neanderthalis encontrou o Homo sapiens e percebeu que sua extinção estava próxima.
Há, contudo, teóricos místicos que acreditam que a Vida de Merda, tal como a astrologia, a matemática, a engenharia, a alquimia e a construção de bicicletas, são na verdade heranças de uma cultura anciã que sumiu com a mítica Atlântida. Segundo estes teóricos, as inscrições na Tábua de Esmeralda comprovam que a frase "Vida de Merda" fora ouvida no velho dialeto atlante no exato momento em que o continente desaparecido começou a afundar.

Sabe-se, por outro lado, que com o sumiço de Atlântida a Vida de Merda não sumiu do seio das civilizações humanas. Hieróglifos nas pirâmedes mostram que durante a primeira invasão hicsa, os egípcios mobilizaram um vasto exército para combater os invasores (de novo). Para sua surpresa, os hicsos sabiam que os egípcios consideravam o gato sagrado e que matar um gato era garantia de má sorte em vida e danação na morte. Os hicsos desceram de suas carruagens de guerra trazendo a lança em uma das maos e um gato na outra, usando-o como escudo. Os soldados do faraó teriam largado as armas no chão, e junto com seu soberano entoaram o canto "Vida de Merda".
Após a dominação de estrangeiros sobre o Egito (de novo), a Vida de Merda ganhou o mundo. Ela foi ouvida durante as invasões assírias por todo o Oriente Médio. É importante mencionar como a Vida de Merda se espalhou para os quatro ventos: Na construção da torre de Babel, as pessoas teriam começado a falar línguas diferentes. Isso transformou radicalmente a Vida de Merda, conferindo a ela um caráter global e um escopo sobre várias línguas e dialetos.

A pandemia de má-sorte assolou a humanidade. A Vida de Merda brotava dos lábios. ALguns fatos notáveis durante a Idade Antiga:
- Após a batalha de Maratona, o corredor grego enviado para dar a notícia da vitória aos seus conterrâneos teria morrido assim que caiu diante dos portões da cidade e gritou "Vitória!". Porém, alguns vigias perto do portão da cidade teriam escutado "Vida de Merdaaa..." como suas últimas palavras. Alguns historiadores refutam tal relato.

- Os romanos começaram a invadir a Gália, antiga França. O imperador Jílio César chegou bombando e detonou tudo e todos, mas Vercingetórix reuniu a resistência rebelde (3 R's da invasão: Reunir, Resistir, Rir diante da possibilidade de vitória contra as legiões romanas). Porém, durante a resistência, uma tribo local perdeu e todos os homens foram enfileirados para terem suas mãos cortadas como represália. Um bardo gaulês teria escrito o poema "As mil mãos cortadas e a Vida de Merda", tal como afirma Júlio César em seu livro "A Guerra das Gálias"

- Dizem que alguns druidas gauleses colocaram em César a maldição da Vida de Merda, o que o levou anos depois a ser apunhalado pelos senadores na sua volta triunfal à Roma, incluindo seu próprio filho adotivo, Brutus. Suas últimas palavras, como disse Tito, foram "To quoque Brutus, fillium meum! Merdarius vitae!" ou seja "Até tu Brutus, meu filho! Vida de Merda!"

- Na aurora de Roma, povos estrangeiros tentaram invadir a Cidade Eterna durante a noite através de uma incursão silenciosa no Monte do Capitólio. Infelizmente, o Monte do Capitólio era o viveiro dos Gansos Sagrados do Capitólio, que furiosamente (e ruidosamente) atacaram os invasores, alertando o exército da cidade. A guarda municipal subiu o capitólio e viu os bárbaros lutando ferrenhamente contra as aves, gritando "Vida de Merda!" enquanto tentavam não virar foie gras nas mãos dos penosos.

- Por fim, caiu o Império Romano. Os vândalos chegaram para saquear o que sobrou de Roma. Os nobres romanos, embriagados por mais uma orgia, receberam os invasores cantando em coro "Vida de Meeerda!! Não é fácil ser romaaanoo!", numa cena linda e épica descrita por pintores bárbaros como exemplo da fortitude e integridade de um povo conquistado.

Após a Idade Antiga acabar, a humanidade passou pela Idade da Vida de Merda, que os renascentistas renomearam de Idade das Trevas. Foi o período de maior azar para a humanidade até então. A Vida de MErda torna-se a base da sociedade naquele tempo:
- Plebeus não eram escravos, mas não podiam desobedecer, fugir, se rebelar, não pagar impostos e tinham de trabalhar vários dias na semana nas terras do senhor feudal sem receber nada em troca. Vida de Merda detected: Plebeus eram escravos.

- Os vikings expandem seu reino de conquista, terror e bebidas fermentadas. O mosteiro inglês de Lindisfarne foi atacado e destruído, seus tesouros saqueados e os monges mortos. As Sagas da era de ouro dos Vikings descrevem que, ao avistar os navios nórdicos se aproximando, os sacerdotes do mosteiro já dobravam os sinos enquanto corriam apavorados gritando "Ye Olde Crap Life! Ye Olde God shall help ye olde us!", o que apenas acrescentou glória aos relatos dos conquistadores do mar.

- Inimigos dos escoceses tentam invadir um castelo à noite (provalvemente eram decendentes dos espertos que escalaram o Capitólio para atacar Roma). Planejaram atravessar o fosso a nado e entrar sorrateiramente na fortaleza. Tiraram os sapatos e entraram na água, mas não podiam adivinhar que o fosso não estava cheio de água, e sim de Cardos. Desde então, o cardo é a planta mais espinhenta símbolo da Escócia. Dizem que até hoje ecoam nas colinas os gritos dos invasores ao bradar "Vida de Merda!"

- Guerra vai, guerra vem, a Peste Negra assola a Europa, matando um terço de sua população. A Vida de Merda torna-se um lugar-comum nos idiomas do Velho Mundo.

- Chega a vez do Império Romano do Oriente cair. Os exércitos Bizantinos, ao avistarem o imenso exército dos Turcos Otomanos, pensam se já não é ora de dizer Vida de Merda. Afinal:
* Dizia a profecia que Bizâncio só cairía se a lua não brilhasse mais sobre o céu. Ocorreu um eclipse.
* O Espírito Santo protegia Bizâncio. Uma erupção vulcânica no outro lado do mar iluminou o horizonte, e quem olhasse para a magnífica basílica de Hagia Sophia veria um clarão partindo da abóbada e subindo aos céus.
* Um dos grandes mistérios da história: Bizâncio era protegida por muralhas sólidas e um portõa imenso. Não sabem até hoje como os bizantinos esqueceram o portão destrancado.
* O último imperador bizantino lutou junto com seus homens nas ruas. Ele lutou sem armadura ou distintivos reais. Foi morto e enterrado em uma vala comum. Dizem as lendas que alguns turcos o reconheceram pelas botas violetas, a cor da realeza. Eles teriam se entreolhado e concordaram que era uma prova da famosa Vida de Merda da qual os ocidentais falavam durante as cruzadas.


E desde então a humanidade vem evoluindo enquanto involui, e a Vida de Merda a acompanha. Episódios famosos incluem
Galileu na Inquisição:
Inquisidor: "Tu negas as tuas teorias de que a Terra gira ao redor do Sol?"
Galileu: (em tom normal) "Ok, ela não gira". (Falando baixinho) "Mas ela gira".
Inquisidor: "Como é que é?"
Galileu: "Vida de Merda..."

Galileu passou o resto dos dias em prisão domiciliar impedido de fazer ciência.

Rei Felipe de Espanha após mandar a Armada invadir a Inglaterra:
Mensageiro: Meu rei, a nossa armada, a mais poderosa do mundo, invadiu a Inglaterra da rainha Elizabeth.
Rei Felipe: Ótimo! Quais são as notícias?
Mensageiro: Bem... Uma tempestade destruiu a maior parte dos barcos, e os ingleses tocaram fogo no resto. Mas parece que alguns pescadores conseguiram voltar.
Rei Felipe: ! (Desmaia convulsivo)
Mensageiro: É... Vida de Mierda!

A destruição da Armada foi a mais vergonhosa derrota espanhola e depois disso o reino não conseguiu mais se reerguer.

Nascimento do Capitalismo:
Nobre: Olá comerciante. Vi que tu tens bela prataria.
Comerciante: Poderias ter tudo o que ofereço, meu senhor.
Nobre: Então abre preço! Preferes pagamento em porcos ou em sacas de farinha?
Comerciante: lol (e fecha a porta da lojinha na cara do nobre, expondo o cartaz "Pague em ouro".
Nobre: Vida de Merda!


Revolução Francesa:
Rei Luiz: Mordomo 212! Vá lá fora ver que algazarra é essa nos portões. Meus convidados estão perturbados! Se for o povo pedindo comida de novo, raspe as sobras dos pratos dos cães.
Mordomo vai.
Mordomo volta: Meu rei, o povo se rebelou. A burguesia está ajudando a plebe. Parece que a Bastilha caiu e uma multidão armada está vindo para cá.
Rei Luiz: É sempre assim, ninguém nunca está contente com o que tem. O que eles querem dessa vez?
Mordomo: Vossa cabeça, majestade.
Rei Luiz: Rápido! Manda preparar minha carruagem! Ah, Vida de Merdé!

O rei Luiz foi pego fugindo da França. A família real foi executada.

Com o avanço regressivo da humanidade, avançou também o padrão da Vida de Merda. Hoje em dia, nos "tempos mordernos", a Vida de Merda faz parte de nosso dia-a-dia: Ela está no pé do motorista de ônibus que acelera ao invés de parar enquanto voce está praticamente dançando no ponto de ônibus mais do que uma corista de can-can. Ela está na mão do seu chefe que dá a promoção ou troca de setor (promoção) para o seu colega puxa-saco enquanto voce continua quietinho onde está com um sorriso amarelo na cara. Ela está no risinho diabólico da professora quando você chega na aula após o ditado ter começado há dez minutos, ou quando ela te entrega uma prova surpresa sobre a matéria daquele dia em que você faltou.

A Vida de Merda está em nossas vidas. Ela não degenerou, continua brotando em profusão de nossos lábios. Perdemos a carteira, acabam os créditos, levamos um pé ou um fora, nossos parentes vêm nos visitar (ficar na nossa casa), o cara da frente pega a última senha do banco, somos colocados na fila dos que "querem servir", o vizinho dá uma festa na véspera da sua prova de recuperação... A Vida de Merda é parte indiscernível do homem moderno.

Grite Vida de Merda. Liberte-se.