terça-feira, 26 de julho de 2011

::: O longo e imemorável inverno de 2011

Luz e sombra, é verdade, venho a imaginar, gostam de brincar de ser um o outro.
A luz chega em qualquer canto do universo em sua carreira alucinada, apenas para perceber que a escuridão do vazio já está ali, esperando por ela, sorrindo ironicamente. Na primeira vez que isso aconteceu, naquela vez primeira em que o escuro fitou o olho da claridade, ambos sabiam que estavam destinados juntos. A quê? Até hoje procuro a resposta observando, à noite, as estrelas tão pálidas enleadas (ou será, sequestradas?) na pala preta do breu do escuro do vácuo do universo da lonjura do outro lado do meu chão.

---
Pausa para uma plêiade:
Celaeno
~ Celaeno ~
---

Um dia, não se sabe qual, a luz tocou o ombro do escuro e no escuro fez-se a luz, sabendo a luz o dia em que o escuro tornava-se mais escuro. E a luz, terá escurecido o dedo que tocou tão negro ombro?
Outro dia, não sabe-se bem quando, a luz chega com pressa para entregar-se a rabiscados amantes (rabiscados de preto, sempre, preto no branco), disfarçando a casa como castelo e de ofício seu hábito de adoração. O escuro, observando, vai lá escurecer o madrigal.
"Estranho!"

"Claro?"

Passou-se tanto tempo. Como pode paracer tão pouco?
O escuro não se reconhece mais. Ficou tão mais claro. Abomina-se. Cobrir-se-ía com seu cuspe mais desdenhoso se ao menos um grão ínfimo de coragem tivesse.
Mas e a luz? Quanto dela escureceu? Escureceu?

O que é desvirtuado sob a luz era tão óbvio na escuridão. Mas e agora que está mais claro, como conviver com esses pecados tão desnudos, tão à vista, tão coitados?
Haverá um dia apenas luz?

Alguéns, em coro, juntaram-se às sombras e entoaram seu canto:
Sonhe, escuridão, com a luz.
Vai-te escuridão, aqui fica a luz.
Adeus, escuridão, deixa livre a luz.

Vai-se a escuridão. Esvai-se a escuridão. Torna-se claro o dia. Só claro, sem mácula aparente da escuridão.

E talvez agora, em sonhos, a escuridão reze para que a luz já não esteja mais tão clara.
Suplico-te, luz, esteja escura.

O medo do amaranto

Amaranto. A flor eterna. A centelha de vida trancada na pele verde, que nas lendas nunca morre porque ao envelhecer, torna-se jovem.

Amaranto, a lenda enraizada e fotossintetizante de uma criatura que, afinal, é imortal.

Ouso, pois, colocar aqui os medos indiscorridos do Amaranto em um breve momento de comunhão que tive com um exemplar dessa floração capaz de ignorar o tempo...

::: O MEDO DO AMARANTO
O que algo que é eterno tem a temer?
Arrancam-te, tornas a enraizar-te e vives.
Assopram-te as folhas, todas, mas tornam a te enlear.
Queimam-te, mas tuas cinzas vem a ornarem-te a sépala.
Despetalam-te as pétalas, mas o mal-me-quer, bem-me-quer jamais tem fim.
Que temes, então, Amaranto?

O Amaranto:
Temo, odeio (correria se pudesse), morro de medo daquilo que sou.
Sou uma imagem.
Eu sou uma imagem.
Imagine.
Imagem.
Uma imagem.
Umagem.
Imagem. Imagem. Imagine. Imagem.

Eu:
Uma imagem, sim, mas do que é eterno. Do que dura para sempre.

O Amaranto me interrompe, e é para sempre:
Morro mil vezes ou renasço mil vezes? O que é eterno nasceu um dia? Uma imagem! Sou uma imagem. Serei só uma imagem? Ai, que imagem devo ser. Tenho medo do que sou, pois o que sou é uma imagem que não sabe se é a imagem que teme a imagem que teme ser. Tenho medo. Morro de medo. Morro de medo. Renasço de medo. Renasço com medo. Mata-me, morro-me, nasço-me, renasço-me, temo-me. Imagem-me. Uma imagem.

Eu:
Entendo. As coisas são puras somente uma vez?

O Amaranto, chorando uma pétala de sua cor:
Não sei. A imagem de desfaz. A imagem morre. A imagem se refaz. Queria morrer, ou então poder viver. Ser. Não ser imagem.

Nós:
Sou imagem?

Vida longa, arte breve

A vida é uma criança. A vida é uma débil tentativa de entender o que há de ininteligível. É o abraço mais forte que um aleijado pode dar, é a tez mais pura que um leproso ostenta, é a lágrima de adoração silenciosa que molha os olhos do admirador cego. Viver é criar impressões, é sonhar dentro de sonhos, é delirar enquanto se delira, é perceber-se divagando em tão grande divagação.

É furtar-se dos momentos de dor para melhor lembrá-los como não os são - como nunca o foram. É viver de vez os momentos de alegria para não ter do que recordar logo além. É desejar mais quando não se sabe o que quer, é não querer mais nada quando se odeia tudo a que se agarra.

A vida é uma criança. É nunca querer ficar velha, é nunca querer amamentar, é nunca querer cuidar, é nunca querer sofrer, é nunca querer brincar, é nunca querer poder, é nunca querer crescer.
O que faz uma criança, pois?

Sonha.

Sonha sonhos dentro de outros sonhos.

A vida é uma criança. Uma criança arteira. Uma criança arteira faz arte.
Não ouse a mãe de vento dizer que crianças brincam. Elas fazem arte.
Não ouse um pai de não sei quê falar que uma criança não quer. Elas fazem arte.
Não ouse uma velha seca de prantos balbuciar que uma criança quer. Elas fazem arte.
Não ouse um demente qualquer gaguejar que uma criança nada é. Elas fazem arte. Quem faz arte, é mais do que é permitido ser.

A vida é uma criança. É não querer acordar quando já se está acordado. É querer morrer para saber como é bom viver. É gostar da loucura por não falar com a estranha da razão.

Ah, a vida... esses sonhos dentro de outro sonhos. Cobrir-me de luto ou cobrir-me de glória, nada querer ou quere demais... Hoje, sonho não sei quê, esperando amanhã (agora, que importa?) sonhar não sei onde sabe-se lá o quê. Mas a vida é uma criança.
Só sonho, nos meus sonhos, em fazer mais arte.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Dilápide

A nossa mente procura a distração.
A nossa mente humana procura a distração.
Com um gemidinho, dilapide sua moral;
Atente contra o pudor atrás do espelho e,
Incontinenti, negue sua dignidade.
Tome um pedaço de pedra e dilapide o próprio tempo,
Com um risco de arame e um tapa no beiço,
Rabisque o seu sustento, risque, mantenha esse fomento.

Sustento, fomento, momento.
A nossa mente humana procura a distração.
Pegue este ferrolho e dilapide a constrição.
A nossa mente procura a distração.
Salve a dor das horas, não guarde nada para si,
Mantenha vivo o seu amor, mate tudo dentro de si.
Pegue esta adaga e dilacere sua moral. Com essa adaga,
Vá regendo seu coral – ossos, baço, fígado e orelhas cantam
Juntos:

Traz-me um amor de orquestra! Traz-me um amor de orquestra! Morena, seja meu naco de pedra!

A nossa mente, ela dilapida nossa moral.

domingo, 11 de abril de 2010

Para pensar

Aquele somente sabe que anda longe
e que muito experimentou;
a motivação de cada homem
que possui senso comum.
- Eddas Poéticas, a Balada do Supremo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Amnemônica

Escrevi meu nome em um pedaço de papel para não esquecer. Tolo! Esqueci onde deixei o papel.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A Ditadura do Pão

Quem acorda cedo e toma café quente não imagina o quão cancerígeno este hábito soa para o esôfago comprido. Quem toma café fumegante e enche a cara de pão entope o sangue com umas espéculas de sei-lá-o-quê que fazem mal para os cromossomos da biologia humana.

Quem corre para pegar um ônibus que nunca sai no horário não sabe o quão extenuante este hábito dói nos tendões brancos e duros. Quem se estica sobre as calçadas não sabe que aquele motorista corno daquela empresa folgada é um homem que bebe café quente e enche a cara de pão quando acorda cedo.

Quem se enfia na lotação como um vírus na veia não sabe o quão nojento este hábito parece para a pele mal-curtida nos lençóis de segunda mão. Quem se embrenha entre as carcaças penduradas nas traves de ônibus como carne no abatedouro morre de medo da gripe A que dá entrevistas na mídia.

Quem se fecha na baia do emprego não sabe o quão triste este hábito constará para a hora da morte. Quem envelhece as juntas na frente do monitor e do patrão vai perdendo braços e articulações até virar uma pasta quadrada cuja cama é um fichário federal.

Quem se cala diante da rotina depois da hora do almoço não sabe o quão tolo parece este hábito para quem escreve o noticiário do jornal. Quem vira bicho inferior aos olhos de quem pagou pelo relógio é um montante de especulações de mercado, gastos do governo, investimento do patrão e contas a pagar.

Quem se vai depois do boa tarde não sabe, parece que esquece, o quão opressiva parece a vida deste lado do túmulo. Quem chega em casa com ossos dormentes (dormem os ossos?) não sabe como é opressora essa ditadura do pão. Quem faz isso chega em casa, espicha os nervos, bebe café frio, raspa o sal da testa e enche, enche a cara de pão.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Mania de quê mesmo?

NÃO é de hoje que se vê exemplos de justiça no Brasil. Justiça capenga, na verdade. Imagino que por baixo daquela venda que tascaram na face dela não haja olhos fechados ou abertos, e sim órbitas vazias. Alas! Talvez no Brasil a justiça nunca tenha tido olhos para ver e a venda é mera vaidade, para nos privar de tão repugnante imagem.

Também não é de hoje que, durante os telejornais, escutemos notícias que nos remetem a fatos antigos, nos fazem lembrar de temas (e crimes) da nossa infância. Hoje, por exemplo, ouvi falar da soltura do menor de idade envolvido na mutilação do João Hélio, aquele menino de 6 anos arrastado do lado de fora de um carro três anos atrás. O então menor e mais três comparsas abordaram a mãe, roubaram o carro... mas não viram, despercebidos que estavam, uma criança pendurada do lado de fora.
Seis quilômetros depois e todo mundo sabe o que aconteceu. Como manda o ECA (estatuto da criança e do adolescente, que aliás tem uma sigla bem sugestiva) determina que um menor internado em instituições sociais para "recuperação" deve ser solto ao completar a maioridade.

Acho que a única coisa que ele recuperou de verdade enquanto passou um tempo internado sendo ameaçado de morte pelos coleguinhas infratores foi a fé na política brasileira, justa e igualitária: Ele e a família, às custas do Estado (id est, às custas de quem paga imposto), serão levados para outro estado e lá ele terá uma identidade nova e moradia porque estão sendo ameaçados de morte (assim como um número incontável de mulheres que apanham em casa, filhos de pais/mães bêbados, ex-mulheres, etc., muitos dos quais fazem pelo menos uma queixa nas delegacias antes de serem assassinados).

Creio que todos merecem uma segunda chance e que o governo dar proteção ao monstro rebatizável é uma boa alternativa para um recomeço. Não creio, também, que seja de todo mal apagar o passado na hora de redefinir o futuro (já que o que está feito jamais será desfeito). Mas achei uma atitude alienada, pra não dizer cega (pra não dizer burra) pelos seguintes motivos: O ex-assassino é uma das inúmeras pessoas que recebe ameaça de morte no país. Os que ameaçaram a ele e à mãe dele estavam presos com ele (perdão, internados com ele), enquanto aquele ex-marido covarde e imundo estava em plena liberdade até o dia em que entrou no salão da mulher e encheu ela de tiros à queima roupa (e depois fugiu, como bom covarde que é. Apodreça na prisão, lixo que não soube aproveitar a segunda chance).
Além disso, o ECA, as instituições para "recuperação"e o Código Penal Brasileiro estão tão aleijados e pobres quanto um trio de pedintes de porta de igreja (um cego, um surdo e outro mudo).
Leis fracas, policiais ineficientes, corruptos, insuficientes ou abandonados à própria sorte, falta de rigor na aplicação e cobrança da lei, advogados sem alma e sem mãe, criminosos ricos ou com cara de coitadinho, enfim. Se perguntassem minha opnião, aceitaria de bom grado que parte dos impostos que eu pago fosse destinada sim à reencarnação do monstrinho que arrastou o meninho por seis quilometrinhos (mas pediria para não debitarem dos mesmos impostos aquela verba para deputado que mora em Brasília viajar de avião pra Brasília. Nem pra panetone, não gosto muito de panetone). O ruim é que o governo vai dar casa e nome pra ele e vai deixar ele lá, virar as costas e só se preocupar se ele cometer outro crime (bolão, alguém?).

Educação começa em casa, se testa na rua e se vê refletida no governo, afinal, o exemplo vem de cima. Quanta gente mal-educada está por trás do ECA, das instituições e da trama penal do Brasil? Melhor não ser governado do que ser governado por gente incompetente.
Para os políticos, faltou levar palmada quando eram pequenos e roubavam os brinquedinhos dos irmãozinhos. Para quem defende o ECA como se o Código Penal fosse o Anticristo, aquele lugar-comum: Justiça é para todos. Quem comete crime de gente grande deve ser tratado como criança?
Mas para nós, meros mortais que colocamos a culpa de tudo em entidades abstratas (para as quais votamos de 4 em 4 anos) enquanto quebramos os espelhos, sobra o de sempre nessa época do ano...
CARNAVAL! AÊÊÊ!!!