Consegui chegar a acreditar que seria bom dividir momentos com mulheres cujos nomes eu não sabia e nunca ficarei sabendo. Os momentos passaram, bons, mas sem seus nomes as mulheres não ficaram nas memórias. Foram folha no fluxo constante de um rio meu. Deriva nas águas do leito.
E talvez tenham passado assim porque, afinal, sou mais que uma criatura apaziguada - coloco-me em situações de pressão. Agrada-me essa ideia, a de que é possível a gente se colocar em uma situação tão tensa que a única opção é a mudança. Mudar. Evolução. Mudança de curso.
Porque o que me excita é a inteligência, e a simpatia. A benignidade de apanhar folhas e pedras, ou de olhar para a água corrente sempre que ela estiver visível. E me atiça um sorriso bonito encimado por olhos que revelam mais do que escondem, porque prefiro me afogar em mar raso e conhecido a perder o lenho em águas estranhas cheias de promessa.
Porque o que me atrai é aquela situação de perigo que só vem através da calma e da familiaridade. Faz meu sangue correr porque é incerto, porque é uma constante insegurança, ou uma insegurança tamanha que não me permite sair da defensiva e da incerteza senão com grande esforço e paixão, para daí aproveitar, como um prêmio, um instante de segurança e paz, flutuar nas águas do rio. Pelo leito.
Não ter conforto não é desconfortável. Não é desconfortante. Nem é desconcertante. É o que quero. É ter que evoluir por causa daquilo que eu amo e por causa daquilo que me atrai, por causa daquilo que me chama e, quem sabe, por causa daquilo que me quer. A isca, para mim, não servirá se for entregue na superfície, mas tampouco me terá se estiver tão fundo que não se possa perceber. Fosse eu o peixe, na verdade, eu morderia o anzol sem artifícios apenas para ter que descobrir um jeito de me livrar do ponteiro e do meu sangue e de alguma dor, mesmo que no leito.
É dessa sorte se perder, às vezes, ou sofrer danos que aparentemente ficam na memória sugerindo que já se passaram tempos melhores. Nem tudo que causa dano é inimigo. Nem todos que se perdem já se encontraram. Mas se esses dias, se essa vida, se essa coisa é o rio, é bom saber que ele segue para desaguar em mais fluxo. E que por muito tempo ele passa em leito.
sexta-feira, 21 de março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
De Mil
Estou cansado.
Por favor não me perguntem o porquê de eu estar cansado.
Estou apenas isso. Cansado.
Não pedi que me perguntassem o porquê de eu estar cansado.
Apenas isso, estou cansado.
Cansado.
Como estou cansado de não dizer que estou cansado, foi isso
o que eu disse.
Que estou cansado.
Só isso. Não me perguntem, eu peço, o motivo de eu estar
cansado.
Nem eu sei. Estou cansado demais para saber.
E mesmo se eu soubesse, estaria cansado demais para entender.
E mesmo que entendesse, cansado como estou não falaria.
E mesmo que eu falasse, cansado assim não escutaria.
E ao não escutar, sendo questionado, eu ainda mais me
cansaria.
Estou cansado.
Ando tão cansado, na verdade, que nem consigo descansar.
Faz anos que não descanso.
Anos em que venho me cansando. Um cansaço latente,
impertinente, imponente.
Cansativo.
Eu poderia fazer prosa, ou então algum poema rimado e
divido. Mas não dá.
Simplesmente não dá. Por quê?
Estou cansado. Gente cansada não consegue se animar a contar
sílabas poéticas.
Gente cansada tem dificuldade em se acertar com a gramática.
Quem sente cansaço não concatena bem na sintática e nem
tripudia pela ortografia.
É, no máximo do seu mínimo, capaz de rebuscar, porque a
dificuldade não exige que se canse tanto. Embora viver canse.
Cansado.
Não cancionado.
Nem casado.
Nem caçado.
Só cansado.
Cansado que mais me canso.
Cansado que canso.
Apenas isso.
Só isso.
Cansado.
Cansa.
domingo, 9 de março de 2014
Um trecho
Trecho do primeiro capítulo de uma história que venho trabalhando aos poucos.
(...)
Empédocles. Aquele cara chato que ficava mendigando a atenção dela. Não
sei bem porque ele tinha esse nome, talvez fosse erudição dos pais. O coitado
não aguentou de saudades e numa overdose de tristeza, comiseração e Send me an Angel dos Scorpions ele decidiu se jogar da ponte
do Rio das Almas.
Também, caso não tenham
percebido, ela é daquele tipo de mulher que junta você e as encrencas.
Claro que podem não ter
percebido! Eu mal comecei a contar.
Acontece que pouca gente deu
importância ao fato do programador da empresa ter faltado naquele dia. Ele
nunca faltava, mas quando finalmente faltou... ninguém percebeu. Ninguém deu
bola.
E assim foi que, por volta das
catorze horas de domingo um grupo de montanhistas, escaladores e aventureiros
profissionais e amadores chegaram até a sombra do portal para o parque Monte
Alma, todos vestidos com aquelas roupas de esporte e trilha que tanta gente
compra porque acha legal mas nunca usa no mato ou na trilha.
Eles começaram a se dividir em
grupos para limpar o local. Uma rave recente havia certamente emporcalhado tudo
por ali. Era proibido fazer uma festa tão barulhenta em um parque, mas a
polícia nem dera as caras por lá.
Um dos grupos estava menos
eficiente porque seu membro mais pró-ativo e mais capaz estava lutando uma
batalha em sua própria cabeça. Ele estava tão distraído que já havia colocado o
capacete de escalada como se fossem dali direto para a montanha.
Ele ainda estava pensando na
ruiva das sardas e das meias de arrastão. Ela era aquele tipo de garota que une
você às encrencas. Era mais um daqueles momentos em que ele se odiava, se
ridicularizava, se consolava e se enchia de esperança – tudo às socapas e às
etapas, conforme ia pensando sua situação. Ele queria ela. Simples. Sempre.
Demais. E ela nunca vinha o suficiente, o que ela se fazia para ele nunca era o
suficiente para ele. Ele precisava de mais dela. Um vício tóxico, talvez, pela
carne e pela voz dela, pelo que ela contava da vida dela para ele, pelas
reflexões que ela fazia ao dizer que havia algo de errado com a cidade, pelo
olhar dela que injetava nele alguma coisa que o fazia escravo e desesperado por
dominar e obedecer.
E nessa querência desesperada
que era física porque misturava as urgências de um animal no cio e ao mesmo
tempo mental e abstrata porque envolvia noções mal curadas de romantismo e
paixão insensata com toques de emoção explicada, ele ia se consumindo num vício
ingrato que não lhe fazia sensato. A fé se erodia. Como o mais miserável,
abjeto e baixo dos viciados, ele sabia o que era aquela alegria intensa e
única, pura e inegável que o veículo e fim do seu vício lhe trazia, apenas para
afastar aquele vulto do vício em si e todo o vazio e sofrimento que derivam
dele.
É querer fugir desesperadamente
do sol, não aguentar sua luz, tremer e murchar diante do seu brilho. Então
chega uma sombra em sua casa que fecha todas as cortinas, bloqueando toda luz,
salvo por uma única fresta deixada talvez de propósito por onde entra um único
facho. Aquele facho é luz, e a luz se teme, mas é tão pequena diante de tanta
escuridão que ela parece apenas uma lembrança, um agouro, um perigo distante,
momentaneamente esquecido.
Cada minuto passado com ela
tinha o valor de horas porque ele sentia esse desespero por ela e o desespero
de saber que tinha apenas algum tempo com ela antes de tudo se acabar e voltar
a ser desesperadamente como antes. Um nojo. Um tédio. Quando as coisas davam
certo sem ela, era tudo pela metade, tudo desconexo. A felicidade intensa que
embolava suas entranhas só vinha dela desde quando ele conseguia se lembrar que
lutava para ser contente.
Ficar com ela. Que delícia de
sensação. Ela entrava pela porta do apartamento e era como se a vida valesse a
pena, cada segundo. Não havia mais problemas, não havia mais perigos, não havia
mais preocupação. Só havia ela, e ele, e o tempo. A distância ia ficando cada
vez mais curta. Mas o tempo passava junto com ela, e cada segundo daquela
intensidade de carne e de sentimento se desfazia porque estava mais perto do
fim inevitável. Algo tão bom não poderia durar muito, e essa ideia martelava o
cérebro dele com a força e a certeza de um tiro a queima-roupa.
Cada abraço, cada beijo, cada
olhar dispensado a ela era um gesto de extrema fé e prazer, mas manchado pelo
pesar de saber que podia ser o último. Ele estava abraçando o vendaval,
beijando dinamite, observando com calma e contentamento a mais violenta e
instável das reações químicas sob um controle estranho e não natural.
Vício. Alívio. Objeto e ser.
Tanta emoção e carne. Ela entrava na casa dele, uma sombra. O sol ficava lá
fora, barrado. Mas havia algo do sol que entrava, lembrando que o tempo é claro
e passa, lógico. Mas foda-se. Ela fechava a porta. Ela trancava a porta do apartamento
dele. Ele sabia que se olhasse pela janela veria ali a imagem embaçada de um
assassino, de um ladrão, de um maníaco. Mas ela estava ali, e ele sentia-se
isolado. Bem. De bem. Em um estado estranho e caótico demais, nervoso demais,
desesperado demais para ser chamado de paz.
– Rapaz, agora ferrou! – E
como se arranca coisa de coisa, ele foi arrancado daquela confusão de
pensamentos de merda que não o levariam a nada. Olhou para o lado e viu um de
seus companheiros do clube de escalada olhando para baixo com os olhos todo
espanto.
sábado, 1 de março de 2014
Metades Vivas
Enviuvei mais de uma vez e continuei meio vivo. Nunca, contudo, conheci a morte por vias de fato. Ignoro-lhe as feições: Passe ela por mim na rua, não a reconhecerei.
Sou viúvo, então, de gente viva. Meu coração morreu aos poucos com meus amores partidos. O resto vive com minhas amadas. Eu morri por nós, de enforcamento.
E sempre morri às metades: Acabou tal amor, metade de mim morreu. A metade que sobra que ame de novo.
Sou, assim, comboio de corda falecida que perdeu muitas e muitas metades. Para o diabo com a matemática da lógica e das quantidades: Sou o luto dos velórios de minhas várias metades que amargaram mortes tristes e arautaram viuvez por gente que segue viva.
Mas o sentimento morreu - diz para mim vez ou outra a tia velha que prepara e serve o cafezinho nos velórios. E sentimento vive?
Sou viúvo, então, de gente viva. Meu coração morreu aos poucos com meus amores partidos. O resto vive com minhas amadas. Eu morri por nós, de enforcamento.
E sempre morri às metades: Acabou tal amor, metade de mim morreu. A metade que sobra que ame de novo.
Sou, assim, comboio de corda falecida que perdeu muitas e muitas metades. Para o diabo com a matemática da lógica e das quantidades: Sou o luto dos velórios de minhas várias metades que amargaram mortes tristes e arautaram viuvez por gente que segue viva.
Mas o sentimento morreu - diz para mim vez ou outra a tia velha que prepara e serve o cafezinho nos velórios. E sentimento vive?
domingo, 23 de fevereiro de 2014
"Aula de Desenho", de Maria Esther Maciel
Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, meu papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retrato o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.
De giz é meu traço. De aço, meu papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retrato o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
::: A Dor possui um elemento de vazio
Pain has an element of blank;
It cannot recollect
When it began, or if there were
A day when it was not.
It has no future but itself,
Its infinite realms contain
Its past, enlightened to perceive
New periods of pain.
A Dor possui algo de vazio;
Não consegue se lembrar
De quando começou, ou se houve
Um dia em que não foi Dor.
Ela não tem futuro senão ela mesma,
Seus reinos infinitos contendo
Seu passado, exposto para que se sinta
Novas épocas de dor.
It cannot recollect
When it began, or if there were
A day when it was not.
It has no future but itself,
Its infinite realms contain
Its past, enlightened to perceive
New periods of pain.
~ Emily Dickinson
A Dor possui algo de vazio;
Não consegue se lembrar
De quando começou, ou se houve
Um dia em que não foi Dor.
Ela não tem futuro senão ela mesma,
Seus reinos infinitos contendo
Seu passado, exposto para que se sinta
Novas épocas de dor.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Outro Erro Crônico
Hoje cometi outro erro velho novamente. Não me aproximei de uma pessoa conhecida achando que é ideal saber manter algumas distâncias. Mas não é esse o mundo que quero para as pessoas que virão, nem o mundo em que quero continuar a envelhecer. Eu devia ter agido diferente para ajudar a construir um mundo onde nunca ninguém tenha de pensar em se afastar de outra pessoa e onde a proximidade, o entrosamento e o contato sejam os alicerces e pilares de todas as relações. Não a hierarquia, nem os títulos, nem os históricos, nem as diferenças. Apenas a vontade humana de chegar junto de.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Outro relato escombroso
Conheci-a no teatro. Ela foi sozinha. Voltou de táxi. Isso
que me encantou.
Entre aquele dia no teatro e meu estado atual lembro que
houve um quarto pintado, muito frequentado, e uma sala cheia de móveis. Imóveis.
Mas hoje minh
a vida é uma casa q
uebrada, sem teto, em ruínas. Minha vida é uma casa arruinada. Cômodos cheios de lembrança, ch
eios de quebras, cheios de memória qu
ebrada. Aqui e ali, entre o rombo e recôndito ainda é possível reviver al
gum te
mpo bom. Ido. Qu
ebr
ad
o.
a vida é uma casa q
uebrada, sem teto, em ruínas. Minha vida é uma casa arruinada. Cômodos cheios de lembrança, ch
eios de quebras, cheios de memória qu
ebrada. Aqui e ali, entre o rombo e recôndito ainda é possível reviver al
gum te
mpo bom. Ido. Qu
ebr
ad
o.
Sou meus escombros.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Dormais – A morte por um milhão de cortes com papel
Dor seca é rio seco. É resina seca. Árvore ressequida. Lago seco. Lágrima seca. Garganta seca. Face ressecada. Canal seco. Veia seca.
Dor é rio.
Dor é ressequida.
Dor é ressacada.
Dor é lago.
Dor é logo.
Dor é veia.
Dor velha é casa velha. Mansão desabitada. Solar velho. Choça velha. Prostíbulo fechado. Tumba esquecida. Cova velha esquecida aberta. Barraco velho. Mãe velha.
Dor é morada.
Dor é habitada.
Dor fechada.
Dor aberta.
Dor fachada.
Dor coberta.
Dor velha.
Dor encravada. Dor são cravos. Dor pregada, dói apregoada. Dor apegada. Dor que prega. Dor que pega e prega. Dor é praga e praga pega.
Dor é isso. Dor é mais. Dor sempre é mais. Doer é mais. Se dói, precisamente – dói mais. Dói demais. Dor de mais. Normas das dores.
Dores normais.
Dor é rio.
Dor é ressequida.
Dor é ressacada.
Dor é lago.
Dor é logo.
Dor é veia.
Dor velha é casa velha. Mansão desabitada. Solar velho. Choça velha. Prostíbulo fechado. Tumba esquecida. Cova velha esquecida aberta. Barraco velho. Mãe velha.
Dor é morada.
Dor é habitada.
Dor fechada.
Dor aberta.
Dor fachada.
Dor coberta.
Dor velha.
Dor encravada. Dor são cravos. Dor pregada, dói apregoada. Dor apegada. Dor que prega. Dor que pega e prega. Dor é praga e praga pega.
Dor é isso. Dor é mais. Dor sempre é mais. Doer é mais. Se dói, precisamente – dói mais. Dói demais. Dor de mais. Normas das dores.
Dores normais.
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