segunda-feira, 16 de novembro de 2009

::: As artes da vida

Viver é uma arte. E a arte é filha da crise.
Escutei que é a crise que nos põe em movimento, que nos faz viver. Mas e quem se deixa vencer pelas crises? Também está vivendo?

Acontece que viver é uma arte, e assim sendo outras formas de arte derivam dela. Acordar é uma arte, trabalhar é uma arte, comer é uma arte, falar é uma arte, até matar é uma arte.
Reservo, contudo, o direito de crer que sonhar não é uma arte. Não os sonhos que se sonha acordado, como diria Shakespeare, mas aqueles sonhos que nos jogam para outros mundos, para além da vida, para além desse ateliê.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Os cadáveres da felicidade

HÃO de concordar comigo, honrados amigos: não há amor mais belo do que aquele que se dá tragicamente entre o homem e sua felicidade. A felicidade é uma donzela que cai em nossos braços moribunda, apunhalada pelo desespero. Nós a temos em nossos braços até que ela morra, por isso a beijamos com avidez e ouvimos sussurrar brevemente, afinal, temos muito pouco tempo para declarar nossa paixão pela felicidade: ela logo morre!

Os sádicos e masoquistas são vermes. Eles pensam que podem se igualar ao destino e à humanidade. Não há sádico tão sádico quanto o destino, não há mazoquista tão mazoquista quanto o ser humano. E não é uma delícia ver a vida ruir?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

::: Amigos: esses desconhecidos

ONTEM de noite eu decididamente não estava legal. Contas atrasadas, desemprego, problemas com mulheres, trabalhos acumulados de faculdade. Resultado imediato: falta de concentração na aula de gramática e ânimo extirpado.

Parênteses! "ânimo", essa palavra tão singela... vem de anima, que em latim significa nada + e nada - que "alma". "Estou sem ânimo" = momentaneamente desalmado.

Bem (aliás, mal), como dizia, aqueles pequenos problemas do dia-a-dia estavam tirando minha paz. E, como sou implosivo, aposto que isso já me rendeu algumas horas de vida a menos (afinal, naquele mesmo dia descobri que as pessoas más vivem mais e as boazinhas vivem menos, palavra de Ana Maria).
Mas tudo melhora quando é dez horas, o momento em que o espírito do estudante se desliga do corpo e viaja pelo tempo e pelo espaço. E quando saí da universidade percebi que meu dom não falhou: o dom de, de repetente, perceber que todos os meus problemas tem uma solução e que a minha preocupação vem em excesso.

Só que eu não estava preparado para o que veio a seguir: eu esqueci meus problemas. É verdade que de tarde, enquanto eu estava escrevendo meu livro, também esqueci, mas assim que coloquei o último ponto final do capítulo, olhei ao redor e vi onde estava, passando pelo que estava passando. De noite, contudo, assim que cheguei no terminal de ônibus, reencontrei uma amiga de escola muito querida, uma dessas pessoas que têm o dom de animar (encher de alma?) o dia dos outros.
E não só ela: no ônibus, conversando com a galera (fundão da linha Tia Marta), desliguei total. Entrei em off. Nada de problemas, estes eram só assunto na conversa e mesmo assim mais pareciam coisa do passado do que complicações do presente.

Quando desci da limousine amarela, me toquei da terapia pela qual eu passei. Esse SUS do mundo fez com que eu percebesse o quanto eu estava me tornando pequeno diante dos meus problemas. Claro, hoje eu já lembrei deles de novo, mas muito mais forte na lembrança estão os quinze minutos de conversa com a galera amiga do ônibus... Realmente, concordo: o que seria da vida sem os amigos?

O irônico é que as contas que paguei hoje deram um valor menor do que eu esperava pagar. E meu FGTS sera na verdade mais que o dobro do que eu achava que ia receber. É, ignorância é uma bênção, mas a amizade é uma bênção maior ainda.

domingo, 1 de novembro de 2009

::: Enquanto isso...

A formiga e o elefante estavam caminhando lado a lado em uma estrada de chão batido. Certa hora a formiguinha olha para trás. Então se volta para o elefante e diz: "Elefante, olha só o poeirão que a gente tá levantando"

Como diria a agulha de Machado de Assis "Também eu tenho servido de agulha para muita linha imprestável". Bibliografia sugerida: "Um Apólogo", de Machado de Assis.

Ah, o prazer de estar vivo e poder gritar "JESUS, ME CHICOTEIA!"

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As Muitas Faces do Eu

Eu sou o que sou.
O que sou é mistério.
Eu sou o que sou,
Não quero saber o que.

Sei o que não sou por enquanto,
E o que quero ser não importa.

Sei o que fui mas ignoro,
Serei mais do que já fui um dia,
tudo de uma vez só.

Eu rio quando estou alegre,
Eu choro quando estrou triste,
Eu arranco os meus cabelos e
Eu ranjo os dentes quando odeio.

Eu me queimo quando estou amando.
Eu não sou brasa, sou o salto mais
alto da mais quente chama do Inferno
E eu sou a mais santa das flamas do Paraíso.

Eu queimo, eu queimo, mas não viro cinzas.
Eu derreto. Eu sou ouro, e me misturo na terra,
Eu viro uma liga com a terra, eu fico puro.

Então me curvo. Ou então eu me ergo.
Então eu canto e exalto, ou
Então eu me esquivo e amaldiçoo.

Eu me espicho e alcanço ou então
Eu me contraio e desdenho.
Eu esnobo e cuspo em cima ou então
Eu me detenho e acaricio.

Então eu sinto. Então eu vivo. Então eu sou.
Eu rio, eu chora, eu gargalha, eu grita, eu sofre.

Eu sou.

Sou muito mais.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Momento Difícil

Atalanta é uma pequena cidade com menos de 4 mil habitantes em Santa Catarina. Seus habitantes são, em maioria, decendentes de colonos, e há três grandes potências na cidade: um par de postos de gasolina da mesma rede, uma beneficiadora de fumo e uma madeireira.

Havia uma família na pequena cidade composta apenas por pai e dois filhos. A mãe deixou-os quando a filha mais velha tinha 10 anos. O pai, cujo nome não lembro ao certo, tocou a família desde então.
Essa semana, quatro anos depois da mãe abandonar o lar, o pai da pequena grande família sofreu um acidente de trabalho na madeireira: uma carga de toras caiu em cima dele. Como ele era doador, não demorou para que chamassem os parentes e passassem o laudo da morte cerebral.

Camila e Alan, não conheço vocês. Não sei se seus nomes são com C e não com K, ou se são com um ou dois Ls, mas rezarei pelos dois. Não sei o que mais posso fazer, mas tentarei descobrir. Também rezarei pelos seus avós e madrinha que cuidarão de vocês. Espero que agora, mais do que nunca, sejam irmãos, e espero que não passem um momento do dia sequer sem apoio para uma hora tão difícil. Não sei como expressar minha tristeza de outra forma, espero poder expressar minha ajuda de outras.

Essa semana uma conhecida perdeu a mãe. Não vou me perguntar se isso é justo ou qual o sentido disso, porque da morte eu sei pouco e serei presunçoso se tentar falar de um sentimento que não senti.

Camila, Alan, pode ser que vocês jamais leiam este texto. Mas se crescerem juntos, saudáveis de corpo e mente, fortes e encontrarem a felicidade nas pequenas coisas de todo santo dia, ficarei muito mais agradecido. Amo vocês dois, mesmo sem nunca ter visto vocês ou sem nunca ter falado com vocês ou ouvido falar de vocês antes.

Como sabemos, nessa hora todo consolo é vão e todo apoio é pouco. Enquanto está escuro, vamos esperar o Sol nascer de novo.

domingo, 20 de setembro de 2009

Um conto budista

Diz a lenda que sobre aquela ponte, em um dia de primavera, passavam um monge idoso e seus discípulos jovens. Enquanto o mestre contemplava as águas rasas e de correnteza forte, percebeu um pequeno escorpião tentando inutilmente manter-se fora da água agarrando-se às pedras.
O mestre, compadecido da pequena criatura, correu até a margem do rio e entrou na água e conseguiu tirar o escorpião de lá. Mas no caminho para a margem, o escorpião, assutado, picou o dedo do mestre, que por instinto e resposta à dor acabou largando o escorpião no rio.

Sem pensar duas vezes, o venerável correu até a margem e apanhou um graveto, voltou para o rio e, com esforço, conseguiu fazer o escorpião subir no graveto e assim tirou-o da água e levou-o em segurança até a margem seca.
Assim que voltou para junto de seus discípulos, que a tudo viram, um dos jovens perguntou:
"Mestre, não entendemos. Por que se esforçou tanto para salvar um animal que picou a única mão que o ajudou?"

O mestre, sorrindo enquanto retomava a marcha, disse para os jovens:
"O escorpião agiu de acordo com a natureza dele. Eu agi de acordo com a minha."

domingo, 13 de setembro de 2009

A Foice dos Deuses

Acho que as pessoas constroem pirâmides enquanto vivem. Elas colocam algo no topo e todo o resto serve de base. Há quem coloque seus princípios, os princípios de outros, o trabalho, a família, o amor, o dinheiro, o sexo, o poder, a tristeza, a loucura, as aparências... O que você coloca acima de tudo? Seu amor por um ser superior? Suas contas atrasadas? Seu sábado à noite?

Hoje há tantas coisas que nos diminuem... Somos números nas estatísticas, cálculos de setor no mercado, consumidores pro comércio, fiéis para a igreja, eleitores (otários) para os políticos, enfim, somos muito pouco para os outros. Hoje temos mania de reduzir as pessoas, torná-las mais simples para que caibam em planos e cálculos e tabelas.

Não sou tão fã do Nietzche, mas amargamente reconheço que ele está certo quando diz que a sociedade degenera o homem. Há espaço para os fracos crescerem e para os fortes diminuírem, mas ao invés de haver igualdade e condições para todos, como em um grupo natural, nós pervertemos as leis naturais e as levamos aos extremos: Há o lobo alfa e o lobo ômega de um bando, enquanto na sociedade humana há os líderes mundiais e os párias. Nenhum ômega sofre tanto em um bando quanto um marginal ou miserável na nossa sociedade gloriosa. Nenhuma crueldade é suportada entre os lobos da mesma maneira que um homem é capaz de infligir a outro. "O homem é o lobo do homem", como disse Plauto.

Nenhum animal é tão perigoso para outro animal quanto um homem é para o outro. Nenhum caçador é tão cruel com sua presa e nenhuma predação ou competição são tão torpes. E ainda assim aceitamos viver nessas condições como se não houvesse forma de mudar.
Não sou niilista, mas também não sou sonhador o suficiente para acreditar que uma idéia aqui e acolá pode fazer a diferença e mudar toda uma sociedade. Isso tudo já se tornou maior que nós, nos perdemos em um labirinto que construímos e volta-e-meia reformamos.
Por isso acredito que o "cada um no seu quadrado" tem um lado positivo. Melhor cuidar da pirâmide do que do labirinto.

"Melhor viver um dia como o tigre do que cem anos como o cordeiro.", já diz o Bushido.

sábado, 5 de setembro de 2009

::: B de Brígida

O amor vence tudo, dizem os brasileiros, porque Amor omnia vincit, diziam os romanos.

::: B de Brigid

Brígida, Brigid, Brígite, enfim, A Exaltada.
Os celtas antigos não costumavam ligar os deuses a aspectos naturais/sociais especiais.
Enquanto, por exemplo, os gregos e os romanos tinham deuses para o céu, para a chuva, para o fogo, para a guerra, etc., os deuses célticos não regiam especificamente algum elemento natural amplo. A maioria estava ligada à terra em que era venerado, havia deuses para cada rio, para cada bosque; mas algumas dessas deidades tornaram-se pan-célticas, sendo veneradas por praticamente todas as numerosas tribos celtas da Idade Antiga, e apadrinhando terras inteiras, clãs numerosos ou ofícios importantes.

É o caso de Brigid, a filha de Dagda, o Bom, com uma poetisa. Ela tinha duas irmãs, também chamadas de Brigid, e as três são veneradas como aspectos únicos de uma mesma deidade.
Brigid, dama da chama eterna, é a protetora dos artesãos, sobretudo os ferreiros. Ela é a anciã, a mais velha, aquela que tempera o aço, aquela que alimenta a forja.
Brigid, a inspiradora, é a protetora dos bardos e poetas. Ela também está ligada à divina chama, pois seu fogo é a faísca que incendeia as mentes dos poetas.
Brigid, a curandeira, é aquela que fornece aconchego e asilo. Seu fogo é a fogueira do fim do inverno, ao redor dela reunem-se aqueles que esperam o fim do inverno e presenteiam-se com tempo para sonhar com a primavera.

Brigid, a Deusa da Chama Tríplice, é honrada pelo festival de Imbolc, ou Imolc, hoje um dos Sabbats dos Wicca e alguns outros grupos neo-pagãos. No Imbolc do hemisfério norte as noites vão ficando menos longas e chega a hora de planejar o que será feito durante a primavera. Os fantasmas da fome e do frio ainda não partiram, mas o sol já volta a brilhar mais tempo.

Brigid era tão famosa no mundo celta que tornou-se conhecida em diversas tribos. Os romanos associaram-na à Minerva, que por sua vez havia sido associada a Palas Atena, a deusa grega da sabedoria e da estratégia. E, mais do que isso, Brigid foi tão estimada pela humanidade que ela resistiu a uma mudança radical: Ela é, para muitos, Santa Brígida de Kildare, uma das Santas Padroeiras da Irlanda. Foi uma das tantas figuras pagãs que encontraram culto na emergência do Cristianismo.

Brigid é a abundância que vêm após a provação. É sonhar com a colheita enquanto ainda é inverno, é ver pronta a ferramenta enquanto o aço ainda está quente e disforme, é ouvir a música pronta enquanto ainda se acertam as primeiras notas. Parecemos estar esquecendo disso, nessa sociedade hedonista que nutrimos hoje. Usamos propagandas e subterfúgios para esquecer o inverno e não encarar as noites mais longas, enquanto queremos sempre ter ao alcance das mãos o que nos traz aconchego.

O segredo para se conseguir um bom texto (entre os outros mil!) é cortar o que ficou ruim, trocar partes inteiras de lugar, descartar o que é bom mas não se encaixa. Nem todo pedaço de ferro aguenta o peso do martelo ou a dureza da bigorna e acaba virando refugo. E, logicamente, a cura só existe por causa da doença.
Ouvimos falar dos nossos amados políticos roubando milhões, mas e nós? Nós, que votamos (deveríamos votas) neles, somos diferentes nesse ponto? Podemos não roubar rios de dinheiro, mas podemos dizer que em momento algum estamos esperando uma recompensa sem termos nos esforçado de verdade? Quantas vezes esperamos um milagre ao invés de agir? Deus não faz o que você tem que fazer, como li uma vez.

Os antigos pagãos sonhavam com as promessas de Brigid enquanto ainda estavam cercados pelo frio do inverno. A única garantia que tinham era o calor da fogueira e o brilho cada vez mais presente do sol. Ainda assim, sonhavam.
Talvez já estejamos escravos de nossos sonhos: esperando uma mudança que fará tudo melhor porque não mais nos acreditamos capazes de lutar por nossa própria conta.

Por Brigid, que eu não seja assim. Que eu não seja o verso cortado, que eu não seja o refugo da forja, que eu não seja a doença sem cura. Que o fogo da Exaltada nos ilumine e aqueça, mas que sejamos todos dignos de sua proteção e compaixão. Filha do Bem e da Arte, ela nos abençoa. Que seu amor cure nossos olhos, pois temo que chegará o dia em que enfim perceberemos que já faz tempo que não temos mais olhos para enxergar.